domingo, 7 de novembro de 2010

Salazar, ou… os fundados receios de uma repetição!

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O texto que transcrevo a seguir foi publicado em 5/10/2010 no blogue “Fiel Inimigo”. Porque, mais do que um simples texto de opinião, eu o considero um texto relevantemente histórico (e preocupante na sua componente de antevisão de uma repetição), limitei-me apenas a substituir-lhe alguns vocábulos mais “fortes” que o autor lhe havia introduzido no original, acrescentando-lhe algumas ilustrações.  Que o autor me perdoe a ousadia destas pequenas alterações, mas a verdade histórica deverá permanecer acima de todas as ideologias. Agrade ou não. Apenas e só porque aconteceu… e deveremos cuidar de que se não repita. Além do mais, o texto está muito longe de ser exaustivo nas suas referências e descrições! A verdade histórica "total", pelas suas variadíssimas dimensões políticas, sociais, económicas e, até mesmo, éticas e morais, está sempre muito para além do que permite o espaço de um simples texto num blogue.


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«Do rumo a um inevitável Salazar»


As beatas dos vários credos de «esquerda» e respectivos sacerdotes andam em palpos de aranha com a sombra de Salazar. A «esquerda» tem visões de querubim e bem alicerçadas relativamente ao futuro, mas, em verdade, nem o passado percebe.

Salazar foi fruto das circunstâncias e as circunstâncias eram más. Muito más. A primeira república assemelhava-se a um saco de gatos e o povo passava fome. Aos olhos do povo, Salazar foi o salvador - porque a fome andava de mãos dadas com a primeira república.
O tempo passou mas não esqueço ter ouvido, em primeira mão, variadas descrições sobre as condições de vida antes de Salazar.
A “sardinha para dois numa côdea de pão” era coisa recorrentemente escutada.

Salazar chegou ao poder e a coisa continuou preta. Continuou, mas foi melhorando. Foi melhorando ao ponto do povo mostrar reconhecimento.
Com Salazar não havia liberdade política. É verdade, não havia. O regime era de ditadura. Mas para quem tinha vivido a fome da primeira república, a liberdade só fazia sentido de barriga cheia. Muito se canta, letrado ou não, de barriga cheia, sobre a absoluta necessidade de liberdade mas, de barriga vazia, a perspectiva não é a mesma e ninguém se atreveria a aturar os protestos do estômago em troca de liberdade. Para o povo de então, a falta de liberdade era um mal menor.
-“Pois”, dizia-se. “o gajo é assim ou assado, mas temos comida na mesa”.

A guerra em África veio complicar as coisas já num período em que, para alguns, se tinha tornado patente que, com Salazar, o país já pouco avançaria. A partir daí a coisa foi-se degradando. Marcelo Caetano sucedeu-lhe e, de substancial, pouco melhorou.


Dá-se o 25 de Abril e a liberdade parecia estar à porta. Portugal tinha as contas equilibradas e, embora atrasado, tinha o equilíbrio possível face às circunstâncias. O país estava atrasado, mas aguentava-se a si próprio. Governava-se.
Os anos de 74 a 76 foram complicados porque uma «esquerda radical» pretendia tornar Portugal numa ditadura comunista a ferro e fogo. Nesses anos desbaratou-se o bom pé-de-meia deixado por Salazar, nacionalizou-se a torto e a direito e iniciou-se o processo de desmantelamento da indústria.

Os anos foram passando e a adesão à (então) CEE estava em cima da mesa pela mão de Mário Soares que, já uns anos após a adesão, veio declarar que não era apenas por razões económicas que se aderia, mas para não se correr o risco de escorregar para nova ditadura, “coisa que nunca seria aceite na CEE”.
Da CEE brotaram então "ziliões" em todos os tipos de apoio, esperando-se, em contrapartida, que Portugal fizesse o seu papel: - se desenvolvesse. Portugal não se desenvolveu.
Instalou-se então a ideia de que à Europa interessava a presença de Portugal como mercado, e que tal seria motivo suficiente para garantir o infindável fluir de gordas verbas.


Os governantes foram-se dedicando a distribuir o que em Portugal não era gerado mas, mesmo assim, não chegava. Era preciso mais dinheiro e foram-se aumentando, recorrentemente, os impostos.

Comeu-se então o pé-de-meia de um sistema de reformas baseado na poupança, em que os descontos de cada um iriam financiar a própria reforma. Gastou-se rapidamente todo o dinheiro guardado e entrou-se num sistema em que os que trabalham financiam agora “solidariamente” as reformas dos que se aposentam.


O aumento de impostos foi sempre complicando a vida às empresas, em particular ao mundo fabril. O aumento de produtividade foi sempre menor que o aumento de salários e de impostos, e a indústria foi fechando. Começou então o ciclo do endividamento.

Já não chegando o dinheiro vindo da Europa e o abocanhado, via impostos, para manter um sistema que ia, em paralelo, alijando cada vez mais (inexistentes) recursos ao social, Portugal começou a endividar-se.
E foi-se endividando brutalmente.

Nem vale a pena falar da mentira pura e dura, da contabilidade criativa, das estatísticas marteladas, do crescimento disparatado do número de funcionários da coisa pública, da propaganda, da promiscuidade entre estado e empresas, do controle político do ensino, da irresponsabilidade em matéria de segurança e de justiça, do aumento desenfreado da corrupção envolvendo os partidos políticos, dos “jobs for the boys”, das tentativas (uma boa parte levadas a “bom” termo) de controle da informação.
Quando as campainhas de alarme começaram a soar, os «partidos» do costume foram sempre afirmando que não, que estava tudo bem, que se estava a investir no desenvolvimento, e que ele só seria possível com um “social” bem preservado.

Enfim, a coisa descambou, o “especulador” começou a torcer o nariz sempre que Portugal lhe aparecia de mão estendida, o juro subiu e até já os sinos repicam.


Portugal encontra-se sem indústria capaz de substituir ou compensar as importações, e a pouca que subsiste é de baixa produtividade.
A carga fiscal, os custos de financiar a máquina estatal e os altos custos da energia, garantem a impossibilidade de vender produtos a preço concorrencial.

Portugal não tem cana de pesca, não tem dinheiro para a comprar e, ainda por cima, não sabe pescar nem parece muito para aí virado.

E o nome de Salazar vai surgindo, e a «esquerda» mostra-se inquieta.

Se Portugal tivesse que viver apenas daquilo que faz, o nome Salazar deixaria de ser apenas murmurado, para ser gritado. Se Portugal tivesse que viver apenas daquilo que faz, o ambiente seria decalcado do fim da primeira república.

E até já o Presidente da República traça, sem rodeios, um paralelismo entre o ambiente actual e o fim da primeira república, em particular se o governo conseguir mandar às malvas a réstia de confiança que o mundo ainda tem na capacidade de Portugal se governar sem pedinchices.
Foi este o ponto a que se chegou, é isto que tanto incomoda a «esquerda». E o Presidente da República afirma ainda, sem rodeios, que cada novo tropeção nos aproxima, inexoravelmente, do risco de uma nova ditadura.


Mário Soares estava em crer que a Europa não aceitaria que Portugal pudesse vir a ser uma ditadura e tinha razão.
O problema é que a Europa já começa a não aceitar que Portugal, com ou sem ditadura, lhe conspurque as contas.

Se as coisas por esta via se toldarem, a esperança de Mário Soares cairá por terra e os gritos por um Salazar levarão a «esquerda» ao mundo da realidade para onde, timoneira, empurrou Portugal.

(Por RIO D'OIRO, Fiel Inimigo)



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(Clicar na imagem para ler a notícia)

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6 comentários:

kakauzinha disse...

José Hermano Saraiva, na «História concisa de Portugal», descreve bem o governo de Salazar e a revolução (« A ditadura e o Estado Novo»,«As contradições da revolução») vale a pena ler.

Tudo o que tínhamos de bom perdemos. E nada do que estava mal feito foi corrigido por este bando de ladrões. Atiraram-se as colónias às feras, a tal da "Descolonização histórica" feita pelo ladrão-mor, Soares. A agricultura foi destruída pelo energúmeno aviltante do Cunhal e comparsas com a dita "Reforma Agrária", logo para começar. E ao longo dos anos todos se escudaram no Salazar para encobrir os erros e a total incapacidade de governação. Agora já não falam nele, é tudo a crise, a crise e mais a crise. Mas a verdade surge, finalmente, pela boca de muitos e tomara esta cambada "governativa" chegar às solas dos sapatos de Salazar.

Ditaduras? Não gosto. Mas continuamos a viver numa. Na ditadura da estupidez partidária, da cegueira, dos compadrios, da completa falta de honestidade.

Liberdade? Pois, é como refere o texto, de barriga vazia não serve de nada. Não paga as contas, não paga nada. Que liberdade é esta? Libertinagem, isso sim!


E é como disseste, o Zé só se preocupa com as novelas e o futebol. A culpa é do Zé que vota em quem não deve porque vira as costas ao que interessa e faz também da Abstenção o maior partido. O Zé merece este atoleiro. Pena é que continue sem aprender, mesmo apanhando nas fuças ano após ano.

(*)

Milan Kem-Dera disse...

Pois é, kakauzinha, e é nesta que estamos. E, ou muito me engano, ou tudo indica que a "procissão ainda não saíu do adro"...
Apesar dos pesares e no geral, as pessoas ainda não "poisaram", a maioria ainda não se deu conta da tremenda bomba em que estamos sentados e que vai começar a explodir a partir de 2011. E vai continuar com explosões cada vez mais violentas pelos próximos anos, 2012, 2013, 2014, 2015... sabe-se lá até quando! E de que maneira!
E saber que, embora eles encham a bocarra com a "crise", a verdade é que tudo isto foi (e continuará a ser) provocado por um punhado de crápulas que se apropriou do país, fabricando as suas próprias leis, feitas propositadamente e à medida só para eles.

E no fim vão todos sair pela "porta grande", (já todos sabemos) pois que nem as forças armadas já têm tomates e a espinha direita para lhes barrar o caminho!... Também estes já foram "comprados"...

kakauzinha disse...

E que procissão! E eu não disse há pouco, mas a lavagem ao cérebro que foi feita à geração da pós-desgraça, e aos ignorantes, permanece nos espíritos. Ainda há quem diga, sem desculpa alguma, que "a política é para os políticos". Desta forma não se pode chegar a lado nenhum. E tens dúvidas que se o Soares se candidatasse outra vez a PR ganhava? Assim ele pudesse e voltaria para o poleiro porque na voz popular "sabe das coisas". Sabe, sabe. Sabe ele e os outros todos, vendedores de banha da cobra.

E como não vai haver Soares (obrigada, meu Deus, obrigada!)pois lá voltamos à múmia paralítica do Cavaco (porquê, meu Deus, porquê?). É só para reforçar a ideia de que os tugas adoram apanhar no lombo. "Senhor, perdoai-lhes porque eles não sabem o que fazem!" Deviam saber, mas não sabem.

Vamos voltar ao tempo das velas e em vez das 4 rodas voltamos aos burros, cavalos e mulas. Qualquer dia até as varandas servem de horta, se é que já não acontece por aí. E, quem sabe, voltamos ao tempo das cavernas, que é para onde estes australopitecos nos vão arrastar.

Isto é a lengalenga de Portugal a cantar à porta da CE:

Help, I need somebody,
Help, not just anybody,
Help, you know I need someone, help!

Help me if you can, I'm feeling down
And I do appreciate you being round.
Help me get my feet back on the ground,
Won't you please, please, help me!

Milan Kem-Dera disse...

Acho que a canção "destes" é mais a canção do "bandido":

Help, I need something...
Help, not just something
Help, you know I need some money, help!
...

Gente sem um pingo de vergonha nas trombas!

kakauzinha disse...

Tens razão. Os Beatles eram uns líricos. "Estes" são mesmo bandidos.

(*)

Karocha disse...

http://infamias-karocha.blogspot.com/