quarta-feira, 29 de junho de 2016

REINO UNIDO - Verdades e mentiras sobre o Brexit




A saída tornou-se inevitável depois do referendo?

Haverá assim tantas pessoas arrependidas de terem votado "Sair"? 

O Reino Unido tem (mesmo) de sair já?

1 - O Brexit é inevitável depois do resultado do referendo?

Ouviu Jean-Claude Juncker, presidente da Comissão Europeia, dirigir-se ao eurodeputado Nigel Farage (um dos rostos do Sair) e dizer que “É a última vez que aplaudem aqui“? A julgar por esta afirmação de Juncker, a resposta parece ser clara: sim, não há volta a dar, o Reino Unido sairá da União Europeia.

Contudo, a realidade indica que este poderá ser apenas o início de um longo processo e não é garantido que o Reino Unido acabe, mesmo, por sair. Recorde-se que o referendo foi convocado como uma consulta não vinculativa. Tratou-se, apenas, de uma votação que tem um objetivo consultivo, pelo que, em teoria, poderia ser simplesmente ignorado pelo governo e pelo parlamento.

Mas não é fácil ignorar que cerca de 17,5 milhões de britânicos tenham votado pela saída da União Europeia. Houve muitos apelos a que houvesse um segundo referendo mas esse cenário parece, neste momento, pouco provável.

É perigosa a ideia de que se pode fazer vários referendos até que se obtenha um dado resultado. Ainda assim, é teoricamente possível que haja um segundo referendo — foi isso que aconteceu na Dinamarca (o primeiro rejeitou o Tratado de Maastricht) e, também, na Irlanda (que, à primeira, rejeitou o Tratado de Lisboa). A situação é um pouco diferente aqui e não parece que este seja o cenário mais provável aos olhos dos especialistas.

Ainda assim, o Secretário de Estado da Saúde, Jeremy Hunt, defendeu esta terça-feira que deve partir-se para uma renegociação com a Comissão Europeia e, só depois de ter o acordo concreto em cima da mesa, o povo britânico deveria ser consultado. De qualquer forma, o Parlamento do Reino Unido é soberano.

Outro cenário que pode levar a que o país não saia da União Europeia é o de eleições antecipadas. Alterações recentes na legislação britânica tornam mais difícil haver uma dissolução do Parlamento. É por isso que o cenário visto como mais provável é que David Cameron seja substituído por outra pessoa do Partido Conservador, que tem maioria no Parlamento.

O que alguns analistas já admitiram é que possa não ser fácil encontrar um sucessor minimamente consensual. E se houver uma moção de censura (não-confiança) que seja chumbada, isso poderá ser algo que desencadeie eleições antecipadas no Reino Unido. E, aí, a votação poderia acabar por ser vista como um segundo referendo de facto, dependendo de como as forças políticas — nomeadamente o Partido Trabalhista — se movimentassem até lá.
Alguém que vencesse as eleições com uma plataforma claramente a favor da permanência poderia fazer com que este referendo acabasse por não resultar no Brexit. Ainda assim, e apesar de todos estes cenários especulativos, a maior parte dos especialistas continua a considerar a saída o cenário mais provável.

Praticamente certo 

Parecem ser elevadas as probabilidades de que o referendo britânico acabe mesmo por resultar na saída do Reino Unido da União Europeia. Essa é a opinião de vários analistas. Mas este será um processo longo e não pode excluir-se que exista um segundo referendo ou eleições antecipadas que coloquem um pouco de areia na engrenagem.

2 - Há assim tanta gente arrependida de ter votado Sair?

A imprensa britânica (e internacional) publicou várias notícias nos dias posteriores ao referendo a relatar a existência de “alguma gente arrependida”. Isto é, pessoas que tinham votado no Sair poderiam estar a repensar a sua decisão — até lhe chamaram o Bregret, numa alusão ao regret que esta gente estaria a sentir. Mas não se quantifica este fenómeno. De quantas pessoas, na realidade, poderemos estar a falar?

Não há muito a que nos possamos agarrar para responder a esta questão. Estes casos existirão, e houve gente a falar de viva voz na televisão britânica neste sentido. Mas é difícil dizer exatamente quantas pessoas poderiam votar de forma diferente se lhes fosse dada essa oportunidade. Isto apesar de, como a reportagem do Observador em Londres pôde comprovar, haver muita gente — incluindo apoiantes do Sair — que achava que o Sair ia perder, sobretudo depois do assassinato da deputada trabalhista Jo Cox.

“Estou chocado por termos votado Sair. Não sabia o que ia acontecer. Não julguei que o meu voto fosse ter grande importância porque achava que íamos ficar [o Ficar ia vencer]”, disse um eleitor à BBC.

Outro caso foi o de Ryan Williams, de 19 anos, que disse ao Metro que se sentia “horrível” por ter votado, sobretudo depois de ver a desvalorização da libra. “Achei que a mudança seria divertida, mas agora a libra está a cair e estou arrependido. Hesitei um pouco quando estava na cabine de voto, mas como o meu amigo votou Ficar eu achei que, desta forma, os nossos votos iriam anular-se um ao outro”.

Estes poderão ter sido casos episódicos, contudo. Uma sondagem feita pela ComRes para o Sunday Mirror indicou que, numa amostra depessoas que votaram Sair, 92% destes mostraram-se “satisfeitos” com o resultado. E 74% dos votantes no Sair dizem que este resultado deve ser respeitado mesmo que a União Europeia ofereça mais concessões ao Reino Unido.

Por outro lado, uma outra sondagem para o Mail on Sunday indicou que 7% das pessoas que votaram no Sair, o que equivaleria a mais de um milhão de pessoas, já se tinham arrependido da decisão.

Inconclusivo 

A imprensa britânica tem estado recheada de casos concretos de pessoas que votaram pelo Sair, mas pode ser muito errado assumir que este seja um fenómeno generalizado. As sondagens que foram feitas sobre o tema não são muito conclusivas — e, mesmo que fossem, depois dos resultados recentes (eleições, referendo etc.) começa a tornar-se difícil confiar demasiado em sondagens no Reino Unido.

3 - Os defensores do Brexit estão a voltar atrás nas suas promessas?

A campanha pela saída do Reino Unido da União Europeia fundou-se em ideias como o controlo da imigração e a entrega de mais recursos para o Serviço Nacional de Saúde (NHS). Contudo, nos últimos dias os defensores da saída têm tido declarações que colocam em causa a validade de algumas promessas.

Um dos casos mais badalados nos últimos dias foi o de Danniel Hannah, um conservador pelo Sair que disse que a livre circulação de pessoas poderá não terminar com o Brexit. “Com franqueza, se as pessoas que nos estão a ver pensam que votaram e que agora haverá zero imigração vinda da União Europeia, vão ficar dececionadas”, afirmou o responsável, num programa de televisão. O antigo jornalista viria a defender-se no Twitter, dizendo que apenas defendeu, sempre, o controlo da imigração — nunca advogou, diz ele, um corte abrupto da imigração.

Outra declaração polémica, logo na manhã após o referendo, foi de Nigel Farage. Recorde-se que Farage não pertencia ao movimento legítimo do VoteLeave, mas fazia campanha pela saída através do seu partido — o UKIP (partido independentista britânico). Farage afirmou que foi “um erro” prometer que os mais de 350 milhões de libras enviados pelo Reino Unido para a União Europeia passariam a ser gastos no Serviço Nacional de Saúde. O VoteLeave escreveu “350 milhões para o NHS” num autocarro de campanha.

Praticamente certo

Decorreram poucos dias após o referendo e será necessário dar tempo para que os defensores do Sair expliquem exatamente o plano que têm para o Reino Unido fora da União Europeia, agora que venceram o referendo. Mas algumas declarações por parte de figuras importantes do Sair já indicam alguns recuos táticos, deixando claro que alguns dos argumentos usados na campanha poderão ter sido “esticados”.

4 - A reação dos mercados está a ser tão má quanto o temido?

As duas primeiras sessões bolsistas após o referendo — sexta e segunda-feira — vão ficar para a História dos mercados financeiros, pelos piores motivos. As ações europeias derraparam quase 6% e alguns cálculos indicam que os mercados financeiros globais viram evaporar-se dois biliões de dólares em investimentos. A libra derrapou mais de 11% nesses dois dias, antes de recuperar ligeiramente nesta terça-feira.

A primeira reação foi intensa, sobretudo porque nos dias antes do referendo havia a sensação de que o Ficar iria vencer e as sondagens encomendadas pelos bancos de investimento — só divulgadas depois das 22h de quinta-feira — apontavam para a permanência. Como o resultado acabou por ser diferente, os mercados foram rápidos a ajustar e a libra afundou de uma forma próxima daquilo que os analistas previam.

Se o Reino Unido cairá ou não em recessão, como avisaram os proponentes do Ficar, isso levará algum tempo a confirmar. Aliás, a forte quebra da libra poderá amortecer o impacto — estimulando as exportadoras. Mas o impacto numa primeira fase será certamente negativo, com investimentos cancelados (ou, pelo menos, adiados) e a incerteza a penalizar a economia. A magnitude dessas dificuldades na economia é muito difícil de prever, mas a agência de rating S&P reviu em baixa a taxa de crescimento prevista para 2016 de 1,9% para 1,6%. E a Fitch cortou para metade as estimativas de crescimento para 2017 e 2018.

Certo 

A libra afundou cerca de 10%, exatamente como a maioria dos analistas previa. E esse foi só o primeiro impacto. É preciso tempo para avaliar a resistência da economia britânica como um todo, mas para já é inquestionável que os dias negros na Bolsa se confirmaram — e isso tem sempre, mais tarde ou mais cedo, um impacto na economia real. Nesta terça-feira, os mercados recuperaram um pouco mas apenas graças à expectativa de que os bancos centrais tomem medidas de estímulo para compensar o efeito negativo do Brexit.

5 - A Escócia pode manter-se na União Europeia?

O Brexit (saída do Reino Unido da União Europeia) ganhou com 51,9%, mas na Escócia o Ficar ganhou com 62% e na Irlanda do Norte ganhou com 56%.

Depois de conhecidos os resultados, a primeira-ministra escocesa, Nicola Sturgeon, disse: “A Escócia votou para permanecer na União Europeia (UE) e eu pretendo discutir todas as opções para que isso aconteça”. Nicola Sturgeon pondera, por exemplo, fazer um segundo referendo sobre a independência do Reino Unido. O primeiro referendo foi feito em 2014 e a independência perdeu, em parte porque isso implicava a saída da União Europeia. Agora, com o Brexit, as circunstâncias mudaram. Uma sondagem da Panelbase para o Sunday Times, divulgada no domingo, mostrou que 52% dos escoceses inquiridos defendem a independência.

A primeira-ministra já avisou que será “inaceitável” que o governo britânico tente bloquear este referendo. Numa outra tentativa para permanecer na UE, Sturgeon disse que vai aconselhar os deputados escoceses no parlamento a boicotar as negociações para o Brexit.

O líder do partido Sinn Fein, da Irlanda do Norte, Gerry Adams, afirmou, citado pelo jornal irlandês Independent, que o voto a favor da permanência deve ser respeitado e que a primeira preocupação para os governantes daquele país deve ser “a ilha da Irlanda”. Martin McGuinness, governante na Irlanda do Norte e membro do partido Sinn Fein, quer que seja feita uma votação sobre a unificação das duas Irlandas.

Se a Escócia se tornar independente do Reino Unido pode, como qualquer outro país europeu, apresentar uma candidatura para se tornar membro da União Europeia (UE), desde que se comprometa a cumprir e promover as regras e valores da UE (artigo 2). “O Estado requerente dirige o seu pedido ao Conselho, que se pronuncia por unanimidade, após ter consultado a Comissão e após aprovação do Parlamento Europeu, que se pronunciará por maioria dos membros que o compõem. São tidos em conta os critérios de elegibilidade aprovados pelo Conselho Europeu”, define o artigo 49 do Tratado de Lisboa.

“As condições de admissão e as adaptações dos Tratados em que se funda a União, decorrentes dessa admissão, serão objeto de acordo entre os Estados-membros e o Estado peticionário. Esse acordo será submetido à ratificação de todos os Estados Contratantes, de acordo com as respetivas normas constitucionais.” O que não consta em nenhum dos tratados europeus é o que aconteceria se parte de um Estado-membro se tornasse independente e quisesse permanecer na União Europeia como novo membro, referiu a BBC.

Inconclusivo

A Escócia, enquanto país independente, pode candidatar-se a Estado-membro da União Europeia. Isto é factual. Mas para Alex Salmond, antigo primeiro-ministro escocês, não faz sentido deixar a Escócia sair, para depois a aceitar de volta. O que não se sabe é se a Escócia, como pertencia ao Reino Unido — um Estado-membro –, pode beneficiar de um estatuto privilegiado na avaliação desta candidatura ou se pode até ver o processo burocrático acelerado. Em relação à possibilidade de a Escócia “herdar” o lugar do Reino Unido na União Europeia, as dúvidas são ainda maiores.

6 - O Reino Unido tem de deixar já a União Europeia?

No primeiro discurso depois de se conhecerem os resultados do referendo, David Cameron demitiu-se do cargo de primeiro-ministro que manterá até ao congresso do Partido Conservador, em outubro, ou até o partido escolher um novo líder, que por vontade de alguns deputados poderá acontecer ainda antes de 2 de setembro.

De qualquer forma, o atual primeiro-ministro entende que o processo de saída da União Europeia deve ser negociado pelo novo líder do governo e não vai avançar com conversações com a União Europeia.

Do outro lado, Bruxelas quer que o Reino Unido invoque o artigo 50 — o artigo do Tratado de Lisboa que prevê a saída de um Estado-membro — de forma rápida. A chanceler alemã Angela Merkel, o presidente francês François Hollande e o primeiro-ministro italiano Matteo Renzi, que estiveram reunidos esta segunda-feira em Berlim, dizem que não haverá conversas informais com o Reino Unido até que seja feito um pedido formal de saída.

Apela-se a que o Reino Unido oficialize a posição rapidamente, para que a União Europeia se possa focar nos 27 Estados-membros que permanecem. “A nossa responsabilidade é não perder muito tempo a lidar com as questões da saída do Reino Unido”, disse François Hollande. “Não há nada pior do que a incerteza.”

Segundo o artigo 50 do Tratado de Lisboa, “qualquer Estado-Membro pode decidir, em conformidade com as respetivas normas constitucionais, retirar-se da União [Europeia]”. Uma vez notificado o Conselho Europeu, “a União negocia e celebra com esse Estado um acordo que estabeleça as condições da sua saída, tendo em conta o quadro das suas futuras relações com a União”.

Uma vez invocado o artigo 50, Estado-membro em saída e a União Europeia têm dois anos para chegar a acordo para decidir os termos da separação “a menos que o Conselho Europeu, com o acordo do Estado-Membro em causa, decida, por unanimidade, prorrogar esse prazo”. De todo o modo, o país deixa de estar representado nos órgãos de decisão comunitários.

Uma vez iniciado o processo de saída não é possível voltar atrás. Se o Conselho Europeu não quiser prorrogar o prazo, o Reino Unido sai, no máximo, ao fim de dois anos de negociações. Se quiser voltar a fazer parte da União Europeia terá de se candidatar como qualquer outro país que tente entrar pela primeira vez.

O que falta agora saber é quando é que o Reino Unido fará o seu pedido oficial de saída. Para isto não há nenhum limite legal imposto, lembrou a BBC.

Enganador

“Esta decisão [iniciar o processo de saída] é nossa e caberá ao Reino Unido e apenas ao Reino Unido tomá-la”, disse o primeiro-ministro britânico num discurso na Câmara dos Comuns, esta segunda-feira. E estava correcto. Só o Estado-membro em causa poderá invocar o artigo 50 do Tratado de Lisboa. E o Reino Unido usará de todo o tempo que desejar para o fazer e nenhuma pressão dos líderes dos países da União Europeia o podem obrigar a fazer de outra forma. De qualquer forma, o processo de saída pode levar dois anos. Enquanto não invocar o artigo 50, o Reino Unido continuará a fazer parte da União Europeia, mas a verdade é que os líderes já se reúnem sem Cameron e o comissário britânico, Jonathan Hill, responsável pela estabilidade financeira, serviços financeiros e do mercado de capitais, demitiu-se no sábado.

7 - O Reino Unido vai ficar isolado?

“Durante as negociações [do Brexit] que vão acontecer, não haverá quaisquer alterações aos direitos das pessoas de viajarem e trabalharem nem à forma como os bens e serviços são trocados, nem à forma como a nossa economia e o sistema financeiro são regulados”, disse George Osborne, ministro das Finanças britânico, na segunda-feira, no primeiro discurso público depois a vitória da saída do Reino Unido da União Europeia.

Para os políticos britânicos que defenderam a saída parece claro que o Reino Unido, enquanto uma das maiores potências económicas do mundo, deve permanecer no mercado único, como referiu o jornal britânico The Telegraph. É verdade que a libra caiu depois de conhecidos os resultados do referendo e que algumas empresas falam em deslocar as sedes para outros países da UE, mas caberá ao governo acalmar os mercados e assegurar que a saída não trará implicações negativas para os negócios.

A saída do Reino Unido da União Europeia não implica obrigatoriamente a saída do Espaço Económico Europeu(EEE), ou do mercado único — onde há livre circulação de bens, capitais, serviços e pessoas –, referiu o The Telegraph. O “modelo norueguês”, que também se aplica ao Liechtenstein e à Islândia preenche muitos dos requisitos pretendidos pelos apoiantes do Brexit. O Reino Unido ficaria livre das políticas da UE — como a política agrícola ou de pescas –, sem deixar de beneficiar do mercado comum. Mas a UE tem de o aceitar.

Com a saída da UE e a permanência no EEE, o Reino Unido ganharia a possibilidade de negociar diretamente acordos especiais com outros membros deste grupo, assim como de negociar livremente com os restantes países da Commomwealth.
Deixar o mercado único poderia implicar um prejuízo incalculável na economia, referiu uma análise do jornal britânico The Telegraph. Ficar no EEE também poderia manter o reino unido: os norte-irlandeses poderiam continuar a viajar para a República da Irlanda e talvez a Escócia se sentisse com menos vontade de ser independente.

Alguns políticos, como referiu a BBC, defendem o mercado livre, mas não a livre circulação de pessoas — que implica poder viver, estudar e trabalhar em qualquer Estado-membro –, mas este é o tipo de acordo que ainda nenhum país conseguiu com a União Europeia. A Noruega, que pode servir de modelo ao Reino Unido, também funciona assim: o mercado único implica a livre circulação de pessoas.

O Canadá está a negociar um acordo de mercado livre com a UE que não implica a livre circulação de pessoas, mas ainda não foi implementado. Mas um acordo para o Reino Unido parecido com o do Canadá seria menos vantajoso do que o modelo norueguês.

Inconclusivo

Para poder ter um acesso privilegiado aos mercados, um pouco como acontece com a Noruega, ou até com novas regras, o Reino Unido precisa de negociar com a União Europeia. Uma vez invocado o artigo 50, o Reino Unido tem dois anos para completar as negociações (como visto no ponto anterior), o que pode não ser suficiente. Logo, parece ser do interesse do Reino Unido começar as negociações antes de oficializar a saída, mas Angela Merkel, François Hollande e Matteo Renzi já avisaram que não estão disponíveis para negociações informais. Só falam com o Reino Unido depois de este confirmar a saída.


( In  Observador, 28/06/2016, por Edgar Caetano e Vera Novais)


quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

PORTO - Uma cidade única na Europa. Talvez mesmo no mundo!



Uma visão diferente de uma cidade de beleza sem par, com os efeitos elaborados através das lentes de alta definição de Paulo Ferreira, mostram-nos toda a beleza desta cidade do norte de Portugal continental. (Aconselho o visionamento do video em écran total)

Verdadeiro tesouro nacional pelas raras belezas naturais e gozando da natureza privilegiada da região onde se insere - a região do Douro - o PORTO começa agora a ser descoberto pelos inúmeros circuitos do turismo internacional.

Rasgada pelo mais importante rio português - o Douro - e banhada pelo oceano Atlântico, é uma cidade fascinante que fervilha de vida, e onde o antigo histórico monumental se casa perfeita e harmoniosamente com a arquitectura moderna. 

Berço do vinho mais famoso e apreciado de todo o mundo - o Vinho do Porto - o Porto é hoje uma cidade moderna com imensas ofertas turísticas, gastronómicas, comerciais e empresariais, a par de uma movimentada vida nocturna saudavelmente desfrutada pelos jovens e pelos menos jovens. 

Estão todos convidados a visitar o PORTO !






sábado, 7 de novembro de 2015

Não tarda que uma nova troika desembarque em Lisboa...




(Os meus programas preferidos:  os próximos debates quinzenais no Parlamento...)


No meio da conversa metafisica sobre a alegada legitimidade ou ilegitimidade do putativo governo António Costa, as notícias que realmente contam têm passado desapercebidas.  Primeiro, um pequeno perigo que pode deitar abaixo todo o edifício construído por uma esquerda que não consegue medir o efeito da sua inesperada ascensão ao governo.  A agência de ratting canadiana DBRS (a única das quatro grandes que não desceu a divida portuguesa à categoria de “lixo”)  avisou na terça-feira que admite fazer descer um degrau à nossa papelada. 
Se isso vier a acontecer, não será permitido ao BCE comprar dívida portuguesa  (de que em larga escala nós vivemos),  nem aos bancos dar dívida portuguesa como colateral do dinheiro que andam por aí a pedir;  e não tarda que uma nova troika desembarque em Lisboa.
(...)

(Vasco Pulido Valente, PÚBLICO - 7 Nov 2015)


quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Se um mar não trava o desespero, pode um muro alguma vez parar?






Perseguidos, roubados e humilhados:

Na fronteira do desespero


Ficar onde estavam não era opção.  Se a morte não os apanhasse, apanharia certamente um dos seus.  Ou vários dos seus.  Por isso deixaram, deixam e deixarão os países onde nasceram e viveram.   E fazê-lo contra a vontade não é capricho, mas sobrevivência. 
E primeiro era o mar, que se tornou para uns (tantos, tantos) um cemitério, a separá-los do que ansiavam alcançar cá, neste lado onde estamos e onde eles vêem (esperam, sonham) esperança e dignidade. 
E depois do mar, agora há muros entre eles e nós, como este na fronteira entre a Hungria e a Sérvia.   Estivemos lá e é lá que regressamos consigo numa experiência multimédia que é experiência de vida. 

Se um mar não trava o desespero, pode um muro alguma vez parar?

(João Santos Duarte e João Roberto)

Ler a reportagem completa na Hungria em:
(Expresso online - 02/Set/2015)


quinta-feira, 16 de julho de 2015

O Syriza já está destruído, podemos agora salvar a Grécia?





Chegará o momento em que tiraremos as mãos das carteiras e as poremos na consciência.   Chegará o momento em que já não veremos os ricos que roubaram mas os pobres que ficaram.   Em que não quereremos ressarcimento mas reparação.   Em que perceberemos que não se pede sequer solidariedade, mas piedade.   Em que nem os sádicos se divertirão com a espetáculo degradante dos políticos gregos.   A União Europeia foi longe de mais na violência estéril e vingativa.   Para destruir o Syriza está a ceifar-se um povo.   Já não é indignação, é súplica: SOS Grécia.   E se tudo o resto falhar, apele-se à inteligência, que não é de esquerda nem de direita, pois é preciso mudar aquele plano que, além de horrível, é burro, é mau, é pior para todos.

Nos palácios de Bruxelas, nos sofás de Berlim ou mesmo nos bancos de jardim de Lisboa permanece apetecível distribuir culpas e medir ideologicamente o debate.   Mas nas ruas de Atenas já passámos essa fase.   Sobra o desespero de saber que nada vai valer a pena porque pagar ou não pagar parece indiferente, o tudo ou nada resultará sempre no pouco, no de menos, no insuficiente, porque o plano não funciona.   Repito: a Grécia vai ter uma recessão pior do que a que os Estados Unidos viveram na Grande Depressão de 1929.   Repito: o plano económico vai falhar porque foi concebido para falhar.   Repito: desistimos dos gregos e resistimos a ver o desastre encomendado.

O bloco liderado pela Alemanha ficou tão furioso com o desplante do senhor Alexis Tsipras na marcação do referendo que quis devolver-lhe em dobro a lição de superioridade.   Até se percebe a fúria, que segundo os relatos da reunião de domingo do Eurogrupo fez com que o senhor Wolfgang Schäuble berrasse.   Alexis Tsipras foi arrogante, marcou um referendo pérfido e achou-se nimbado de invencibilidade com os resultados, como se fosse dar uma tareia moral aos demais estados membros.   Mas a Alemanha quis tanto destruir o Syriza, por vingança e por dissuasão a que outros países elejam partidos radicais, que perdeu a noção da força.   Mais um pacote recessivo vai destruir mais economia e mais emprego numa economia já exangue.

A vitória sobre Tsipras foi retumbante.   Até o perdão da dívida, que o Syriza sempre reivindicou, é agora formalmente admitida pelo FMI, mas de forma a culpar o partido, que não tem nada para mostrar.   É ridículo ouvir Alexis Tsipras dizer que assinou um acordo em que descrê.   É degradante vê-lo tripudiar o próprio Syriza e ancorar-se nos deputados dos partidos que detesta e que o detestam a ele.   É assustador ouvir a presidente do Parlamento (que pertence ao Syriza e se junta aos 40 deputados que se afastaram de Tsipras) falar em genocídio social.   Mas a humilhação suprema talvez seja ver Tsipras dizer que não há alternativa.   Tsipras, o temível mastim indomável, está amestrado como um caniche.   Dá dó.   A direita rejubila.   Também dá dó.   Porque ninguém pára, escuta e olha para perceber na loucura que estamos a patrocinar.

A loucura de ver um povo desesperado que, depois de cinco anos de austeridade duríssima, tem prometida nova dose de austeridade duríssima.   A loucura de tornar o pagamento da dívida mais insustentável do que nunca, pela destruição económica provocada – se a Grécia sai do euro, os credores podem esquecer, vão receber raspas.   A loucura de segregar dentro da União Europeia, cavando um fosso que nos vai apartar sabe-se lá até que lonjuras.

A Grécia só se livra desta sarna se, além do perdão de dívida que de qualquer forma terá, tiver um programa de estímulo económico.   O mundo, aliás, só recuperou da Grande Depressão dessa maneira.   Percebe-se a pulsão de obrigar o país a adotar as reformas estruturais nunca adotadas, incluindo a de ter um Estado que funcione e que cobre impostos.   Mas não é destruindo o espaço político e aniquilando a economia que tal vai ser conseguido.   A violência na Praça Syntagma é desenrolada por grupos anarcas ruidosos as pouco representativos.   A miséria que se alastra, não: é de todos.

É preciso mudar o plano.  Somar à austeridade um programa de investimento que estimule a economia e que apoie casos sociais de pobreza.   Isso é ser inteligente, até porque é a única forma de tentar recuperar parte da dívida.   Talvez a linha dura dos alemães queira apenas humilhar o Syriza e tenha feito um plano para que, depois da capitulação de Tsipras, mude o plano para melhor.   Até seria bom que isso fosse verdade.   Seria maquiavélico mas, ao menos, saberíamos que a loucura iria mudar.   E que, portanto, a Grécia haveria de ter saída da crise em vez de uma saída do euro.   Para já, o que vemos é o que temos, um país inteiro a afundar-se na desgraça.

Os gregos estão desesperados porque a situação é desesperante.   Coloquemo-nos no lugar deles por um minuto: um governo de extrema esquerda ajoelhado depois de cinco anos de tareia, de desemprego e de austeridade, depois de décadas de corrupção e roubo institucionalizado com os governos de centro.   E o que lhes dizem que se segue?   Pobreza.   Talvez a esta hora também estivéssemos na rua.

(Pedro Santos Guerreiro, Expresso online, 16/07/2015)


sábado, 20 de junho de 2015

Isto é BULLYING EUROPEU: - a destruição da Grécia em nome de uma mentira!





O PODER DOS LOUCOS

Parece um debate de loucos.   As instituições europeias pedem à Grécia que se comprometa com metas em que só um doido varrido acredita.   Para conseguir equilibrar as contas públicas, o Estado grego teve de arrasar a economia, deixar o endividamento público chegar a uns inacreditáveis 177% do PIB, pôr mais de um quarto dos gregos no desemprego e uma grande parte deles a viver abaixo do limiar de pobreza.

O que as instituições europeias estão a fazer à Grécia é Bullying.   O resultado pode ser a saída grega do Euro.   Não sei, não sabe ninguém, porque nunca foi experimentado as consequências de tal passo para os gregos e para a Europa.

Tenho lido que a Grécia se tem mostrado irredutível perante os credores.   Que não aceita.   Que é teimosa.   Que é radical.   Não há negociação possível quando um dos lados pede o impossível.   Se o Governo grego aceitasse estas metas estaria a mentir aos europeus.   E, depois disso, a destruir a Grécia em nome de uma mentira.   

As medidas que a Europa quer impor à Grécia  (aumento de impostos ao consumo e mais cortes nas pensões)  teriam um efeito devastador na já devastada economia grega.   Tornando ainda mais improvável o que, na realidade, já é impossível:  - pagar a dívida.

É difícil acreditar que a Comissão, o BCE e o FMI acreditam que a Grécia pode conseguir nos próximos dois anos, no meio da crise em que está, o que metade dos países europeus nunca conseguiu na última década.   E se não estão loucos e não acreditam, desejam uma de três coisas:   - que o Governo lhes minta, para aplicar medidas inúteis que provem que a Grécia vergou, que decida sair do euro ou que sugue o que resta do país para mais tarde sair do euro.

Se se tratar da tentativa de saque, ela representa o fim moral da União:  - um credor não pode acabar com um país para cobrar dívidas, assim como não pode acabar com a vida de alguém para reaver o dinheiro.   Se for uma das outras duas possibilidades, a motivação destes credores é política:  - impedir que mais algum povo pense que o seu voto pode mudar a Europa.   Trata-se de um golpe de Estado.

O que as instituições europeias estão a fazer à Grécia é bullying.   O resultado pode ser a saída grega do euro.   Não sei, não sabe ninguém, porque nunca foi experimentado, as consequências de tal passo para os gregos e para a Europa.   E este é o segundo sinal da loucura:  - há imensos responsáveis políticos por essa Europa fora que têm a certeza de que uma União que está há seis anos enredada numa crise de que os outros já saíram está preparada para os efeitos do “Grexit”. 

Não sei se os gregos resistiriam ou não a esse passo para a sua liberdade.   E não sei se a Europa e nós próprios aguentaríamos a sucessão de acontecimentos imprevisíveis que tal passo desencadearia.   

Sei que as certezas de tantos, que inventam convicção onde só podem ter dúvidas, são um excelente barómetro da irresponsabilidade política que grassa pela Europa.   E ela explica quase tudo sobre esta negociação.

(Daniel Oliveira, in Expresso, 19/06/2015)



TROIKA - A NOVA ORDEM EUROPEIA !!!



OS SEGREDOS DOS RESGATES FINANCEIROS!!!




AS ORIGENS DO CANCRO DA EUROPA!



quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Aqui te deixo, saudosamente, uma rosa branca sobre o teu caixão…





Não podia ter acontecido...  assim!


Dói.  Como há muito não doía...
Nunca contei que partisses antes de mim.
E jamais pensei que me doesses tanto assim,
esta dor que sufoca que se instala e não sei bem 
donde vem.
Sei apenas que vem de dentro,  
das profundezas de mim.

E  lembro com saudade os dias felizes 
de quando menina te conheci.
Depois...  foram longos os anos dos desencontros.
Longos também os anos de lonjura e desinteresse
até quase me esquecer de ti.
Mas eu sabia que tu estavas aí
e isso me bastava.

E agora…  agora que partiste fazes-me falta.
Porque eu queria saber-te sempre viva,  
imortal.  
E agora...  agora que arrefeces assim,
também eu sinto este frio de morte,     
a sensação profunda deste vazio gélido, 
mortal.

Nós errámos a vida.  Fizemos tudo mal. 
E agora…  agora só me resta esta amargura,
esta certeza de jamais poder voltar atrás.
O nosso tempo acabou.  
Definitivamente! 
Não mais te verei para todo o sempre, 
na eternidade da tua sepultura.

Afinal...  sei-o agora, 
nunca chegaste a sair de todo cá de dentro.
Descansa em paz.

(13/Janeiro/2015)




terça-feira, 13 de janeiro de 2015

PARIS - A monumental demonstração da HIPOCRISIA europeia!!!






Europa terrorista 
A quadrilha que vai liderar a manifestação de Paris prostituiu a Europa, matou os projetos de Vida



Os massacres de Paris não vão ter alguns dos principais autores no banco dos réus.   Foram abatidos durante a refrega que pôs termo à chacina gratuita de inocentes.   Mas lá se sentarão, mesmo que só a História os julgue, os poderes fundamentalistas gerados no Yémen e o conjunto de personalidades que hoje encabeça a manifestação de Paris. 

A explosão afetiva e solidária ‘Je Suis Charlie’ é património de poucos.   Não é, de certeza, pertença desta Europa cínica, protetora de ladrões e especuladores financeiros, que há muito se borrifou para os sonhos da Igualdade, da Liberdade e da Fraternidade, gerados no ventre francês e que emigraram por esse mundo fora.   Pois o problema é político.   Nunca foi religioso. 

Os presidentes, os primeiros-ministros e outros acólitos que hoje desfilam em França em defesa da liberdade de expressão são os seus carrascos.   Nunca leram o ‘Charlie Hebdo’.   Apenas bebem as palavras de Merkel.   São como os assassinos, que nunca viram o Corão, muito menos o estudaram, e matam em nome do Profeta.   A quadrilha que vai liderar a manifestação de Paris prostituiu a Europa, mentiu nos sonhos, matou os projetos de Vida. 

Esta quadrilha quis emigrantes para a mão de obra escrava e desprezou o valor do trabalho.  Desprezou o emprego.   Desprezou a escola e a educação.   Atirou para a fome e para a ruína milhões de desgraçados.   Mas pior do que isto, a Europa cínica que hoje habitamos matou a Europa de Monet.   Fez da União Europeia uma pantomima, aceitou de joelhos os ditames da Alemanha que fala por nós, contra nós, imperialismo da especulação que matou sonhos.   Quem mata sonhos não pode esperar outra coisa a não ser a multiplicação da raiva, da indignação e, finalmente, do ódio. 

Estes grupos em desvario são europeus.   Nasceram aqui e matam por ódio.   E as maiores vítimas até são muçulmanos.   Ódio, porque lhes prometeram sonhos e lhes entregaram um imenso vazio.   Um vazio onde habitam milhões de outros jovens a quem mataram os sonhos, que não assassinam, mas se desinteressam da política, desprezam os figurões que vão marchar à cabeça da manifestação em Paris, servos e serventuários de especuladores, de offshores, de roubos, não de joias mas de países.   Reprodutores de desigualdades, semeadores de injustiças, párias da fraternidade, amigos da liberdade de saque. 

É esta a Europa cínica, e canalha, que aceitou o apelo de Hollande e vai fazer de conta que é amiga da liberdade de expressão.

(Francisco Moita Flores CM, 11/01/2015)



sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

«Eles não têm coragem para me prender»





Depois de sucessivos escândalos a escapar por entre os pingos da chuva, as pessoas foram-se habituando à impunidade de Sócrates


Uma frase proferida por José Sócrates em conversa telefónica com o seu amigo Carlos Santos Silva, pouco antes de ser detido - «Eles não têm coragem para me prender», é duplamente reveladora.   Em primeiro lugar, parece ser uma admissão de culpa:   Sócrates não diz que está inocente, diz é que os juízes não serão suficientemente corajosos para o meter na cadeia.   Uma pessoa que se sinta inocente não faz, em princípio, uma afirmação destas.   Por outro lado, Sócrates mostra-se possuído por um sentimento de 'impunidade'.   Acha-se colocado num tal pedestal, detentor de um tal estatuto, que ninguém ousará deté-lo.   Mas donde virá esta  sensação de impunidade?

Julgo que não apenas Sócrates a interiorizou, mas muitos portugueses.   Depois de sucessivos escândalos que terminaram sempre da mesma maneira, com o ex-primeiro ministro a escapar por entre os pingos da chuva, as pessoas foram-se habituando.   «É mais um escândalo de que ele se vai safar» - pensavam.

Depois das dúvidas, suspeições, trapalhadas e coisas mal explicadas existentes nos casos da Cova da Beira, dos mamarrachos, do diploma, do Freeport, do Face Oculta, do Taguspask, etc. - nos quais o nome de Sócrates aparecia sempre envolvido e que acabavam sempre em águas de bacalhau, a suspeição relativamente ao ex-primeiro ministro banalizou-se.   Perante cada novo caso, os amigos encolhiam os ombros e os inimigos já não acreditavam que Sócrates viesse a ser criminalizado.   Era como na fábula de Pedro e o Lobo.   E quando a detenção chegou, foi uma surpresa para quase todos.

Escrevi por diversas vezes que Sócrates é «o Vale e Azevedo da política» e sempre admiti que, tal como o ex-presidente do Benfica, havia fortes hipóteses de ele vir a ser detido depois de deixar o cargo.   Porquê?  Porque eu tinha a quase certeza que a corrupção estava lá – só faltava descobri-la.

Assim, quando José Sócrates saísse cle S. Bento e os responsáveis da Justiça, Pinto Monteiro e Noronha do Nascimento, fossem substituídos, era muito provável que a verdade viesse ao de cima.   E assim aconteceu.

(José António Saraiva - extracto de artigo publicado no SOL – 02/01/2015)


sexta-feira, 28 de novembro de 2014

UM FINGIDOR






Nunca gostei da personagem política “José Sócrates”, desde a campanha para secretário-geral do PS (em que ele prometeu não aumentar impostos que, de facto, aumentou) até à sua ascensão a primeiro-ministro, muito ajudado por Pedro Santana Lopes e pela reputação de autoritário que entretanto adquirira.

Não tranquiliza particularmente ser governado por um indivíduo que se descreve a si mesmo como um “animal feroz”, nem por um indivíduo que prefere a força política e legal à persuasão e ao compromisso. Se o tratam mal a ele agora, seria bom pensar na gente que ele tratou mal quando podia: adversários, serventes, jornalistas, toda a gente que tinha de o aturar por necessidade ou convicção. Sócrates florescia no meio do que foi a sufocação do seu mandato.

O dr. António Costa quer hoje separar os sarilhos de um alegado caso criminal do seu antigo mentor da política do Partido Socialista e do seu plano para salvar a Pátria. O que seria razoável, se José Sócrates não encarnasse em toda a sua pessoa o pior do PS: o ressentimento social, o narcisismo, a mediocridade, o prazer de mandar. Claro que, como qualquer arrivista, Sócrates se enganou sempre. Começou pelos brilhantíssimos fatos que ostentava em público, sem jamais lhe ocorrer se as pessoas que se vestiam “bem” se vestiam assim. Veio a seguir a “licenciatura” da Universidade Independente, como se aquele papel valesse alguma coisa para alguém. E a casa da Rua Braamcamp, que é o exacto contrário da discrição e do conforto e último sítio em que um político transitoriamente reformado se iria meter.

Depois de sair do Governo e do partido, Sócrates mostrava a cada passo a sua falsidade, não a dos negócios, que não interessam aqui, mas da notabilidade pública, por que desejava que o tomassem. Resolveu estudar em Paris, para se vingar da humilhação do Instituto de Engenharia e da Universidade Independente, e resolveu fazer um mestrado em “Sciences Po”, sem perceber que o mestrado é uma prova escolar de um estatuto irrisório. Em Paris, viveu no “seizième”, o bairro “fino”, como ele achava que lhe competia, e, de volta a Lisboa, correu para a RTP, onde perorava semanalmente para não o esquecerem: duas decisões ridículas que só serviram para o prejudicar, embora estivessem no seu carácter. Como o resto do país, não sei nem me cabe saber se o prenderam justa e justificadamente. Sei – e, para mim, chega – que o homem é um fingidor.

(Vasco Pulido Valente, PÚBLICO - 28/11/2014)


quinta-feira, 27 de novembro de 2014

La chute d’un «opportuniste sans idéologie»






FRANÇOIS MUSSEAU MADRID, 26 NOVEMBRE 2014



L’ex-leader socialiste est incarcéré depuis mardi dans une prison qu’il avait inaugurée lorsqu’il était Premier ministre du Portugal.

«L’incomparable José Sócrates», ironise l’éditorialiste du quotidien Publico José Miguel Tavares. «The Special One», s’amusent plusieurs commentateurs, appliquant à celui qui dirigea le Portugal entre 2005 et 2011 le surnom d’ordinaire attribué au sulfureux entraîneur de foot José Mourinho. Après avoir été longtemps prudents, voire trop respectueux avec Sócrates, Sol ou Correio Da Manha exceptés, les médias portugais se livrent désormais au grand déballage contre celui qui a créé la sensation, lorsqu’il fut interpellé à l’aéroport de Lisbonne, vendredi.

Motif de cette détention inédite : «fraude fiscale» et surtout «corruption» et«blanchiment de capitaux». Le montant des sommes qu’aurait détournées Socrates n’est pas connu, mais la presse nationale parle de dizaines de millions. Depuis environ un an, la brigade financière portugaise, la DCIAP s’était étonnée de son train de vie à Paris, où il réside : un appartement de 2,8 millions d’euros, la fréquentation de restaurants de luxe… Des écoutes téléphoniques auraient fait le reste.

«UN DEGRÉ SUPPLÉMENTAIRE D’IMMORALITÉ DANS LA VIE PUBLIQUE»

L’ancien leader socialiste, qui en mai 2011 avait démissionné alors que son pays était au bord de la faillite financière, a été placé mardi en prison préventive à Evora, dans un de ces établissements modèles qu’il avait lui-même inauguré alors qu’il était le fringuant Premier ministre ! Chaque jour, déjà écœurés par une série de scandales en cours (tous liés à la «décennie heureuse» de l’argent facile, 1995-2005), les Portugais découvrent le détail des forts soupçons qui pèsent sur José Sócrates – et ce, même si le secret de l’instruction a été déclaré par les magistrats.

«Son incarcération, c’est la cerise sur le gâteau d’un système corrompu, souligne un présentateur de la RTP, la télé publique. L’affaire Sócrates correspond à un degré supplémentaire d’immoralité dans la vie publique. Une sorte d’électron libre.» Avec, comme alter ego dans le monde financier, son ex-compère Ricardo Salgado, l’ancien président de la banque Espírito Santo, lui aussi interpellé, en juillet, pour blanchiment de capitaux.

HOMME DE PAILLE

Officiellement, lorsqu’il déménage à Paris au printemps 2011, José Sócrates prend une retraite politique «bien méritée», celle d’un honnête citoyen qui a servi son pays«le mieux possible». Désireux de «réfléchir et de prendre le temps», il s’inscrit à Sciences-Po pour faire une thèse doctorale. Et, tel un observateur assagi au-dessus de la mêlée, participe à des émissions de la RTP pour commenter la vie politique portugaise. Il dit alors n’avoir qu’un seul compte bancaire et, pour louer un appartement dans la capitale française, affirme recourir à un prêt. Un politicien modèle, en somme, qui a su s’arrêter à temps et que la cupidité n’aurait pas rongé.

Sauf que, de source judiciaire, ce qui a motivé son arrestation raconte une tout autre histoire. Son chauffeur João Perna, lui aussi interpellé, faisait souvent le trajet Lisbonne-Paris en voiture pour lui remettre de grosses quantités d’argent en liquide. A partir de janvier 2013, José Sócrates est consultant pour la multinationale pharmaceutique Octapharma AG, pour laquelle il touche 12 000 euros par mois. Mais, selon le quotidien Sol, la multinationale lui versait 12 000 euros supplémentaires correspondant en réalité à son propre argent issu d’une société offshore mise au nom de son ami d’enfance, l’entrepreneur Carlos Santos Silva. Ce dernier, tout comme son épouse, aurait servi d’homme de paille dans le cadre d’un réseau sophistiqué de sociétés-écrans contrôlés par Sócrates.

LEADER LOUCHE, «TOUJOURS BORDERLINE»

Lorsqu’il était en fonction, l’ancien chef du gouvernement a révolutionné la vie politique portugaise. Sanguin, autoritaire, des manières un peu bling-bling à la Sarkozy, il a su dépoussiérer une administration ankylosée, voire inefficace, et obtenir, lors de son premier mandat, des résultats probants. Mais, en parallèle, José Sócrates fut ce leader louche, ce «produit médiatique» ou «politicien Armani» (dixitle Publico pour fustiger son côté gauche caviar), impliqué dans maints scandales et parvenant à chaque fois à se sortir des griffes de la justice. «Depuis les origines, il a été ce jeune loup, opportuniste, sans idéologie, obsédé par l’escalade des échelons vers le pouvoir suprême, toujours borderline», dit l’historien Fernando Rosas. Ancien militant du parti de droite, le PSD, passé chez les socialistes en 1981, cet admirateur de Tony Blair a connu un parcours peu limpide. Il y a d’ailleurs de fortes chances que son diplôme d’ingénieur civil, obtenu en 1980, soit un faux.



quarta-feira, 22 de outubro de 2014

PORTUGAL ESTÁ À VENDA !






O caso PT é o epílogo de uma longa história de privatizações, gestão deficiente, ganância e alienações ao desbarato. A crise e a falta de liquidez do País fazem o resto. Ninguém está inocente, nem o Estado nem os privados. Veja um filme do qual não conseguirá sair:


A vida da PT (Portugal Telecom) dava um filme.   Em 1999, data de entrada do "gestor modelo" Zeinal Bava na empresa, ela valia 11 380 milhões de euros.   No ano seguinte, processa-se a privatização e o Estado fica com 500 ações douradas (de que abriria mão, com a vinda da troika, em 2011).   Essa golden share viria a ser importante para travar a OPA do Grupo Sonae em 2007, com o argumento do risco de posterior venda a estrangeiros...   Começa a aposta no Brasil e, em 2004, a empresa atinge o seu zénite, com um valor em bolsa de cerca de 11 400 milhões de euros.   Foi há dez anos.   Hoje, valerá menos de 10 mil milhões.   Desvalorizou-se, numa década, o equivalente a uma verba superior ao que o Estado paga, por ano, em juros da dívida pública.   Ou, se quisermos estabelecer outra comparação, a perda de valor da PT ultrapassa o custo, por ano, do Serviço Nacional de Saúde.   Mais, enfim, do que o total do défice das contas públicas previsto para 2014.   Como foi possível?

O pesadelo aconteceu devido ao facto de Portugal estar a ser vendido a retalho e a preço de saldo.   A história da PT é o epílogo de um longo período de depauperamento da economia nacional.   A PT era uma empresa de vanguarda, um exemplo de inovação, agressividade comercial e internacionalização, que a ganância de alguns acionistas e um acto de gestão terceiro-mundista - a inexplicável exposição ao Grupo GES - deitou abaixo.   Atónitos, os portugueses constatam que, afinal, a empresa terá sido gerida, nos últimos anos, de lápis na orelha.   Mesmo assim, Zeinal Bava, depois de ter "entregue" a PT à Oi, sai do grupo brasileiro com uma indemnização de (valores não desmentidos) 5,4 milhões de euros.

Engarrafar e vender o ar

Porque deixámos que quase todos os sectores ditos estratégicos (o que quer que isso seja) caíssem em mãos estrangeiras?  A responsabilidade deve ser assacada ao Estado - e aos governos PS, PSD e CDS - ou, também, aos privados?   Quem não se lembra da venda do Banco Totta & Açores ao Grupo Champalimaud e do seu desaparecimento nas goelas do gigante espanhol Santander?   Onde param as boas intenções do grupo de empresários que, patrioticamente, produziram documentos a jurar velar pela manutenção dos centros de decisão em Portugal?   Pois não foram eles os primeiros a vender tudo e mais alguma coisa, pela melhor oferta?

Para João Cravinho, antes de haver sectores estratégicos "teria de haver estratégia", coisa que, na opinião do ex-ministro socialista dos governos Guterres, "não existe, nem no sector público nem no sector privado".   Mais, o alheamento das autoridades deve-se à teoria de que "não faz sentido ter uma estratégia", quando tudo se resume a questões "que se resolvem no e pelo mercado, deixando que as leis da concorrência funcionem".
E, no entanto, a lei dos sectores estratégicos, publicada a 15 de Setembro, até parece salvaguardar o essencial, talvez tarde de mais:   assegurar os "activos estratégicos essenciais para garantir a defesa e segurança nacionais e segurança do aprovisionamento do País em serviços fundamentais para o interesse nacional, nas áreas da energias, dos transportes e comunicações, enquanto interesses fundamentais de segurança pública".   

Mas basta pensar na privatização, ou, para sermos mais justos, na concessão a privados da exploração das Águas de Portugal, para concluir que só o ar que se respira não está privatizado porque ainda não é possível ser consumido engarrafado.

Cimentos, banca, estaleiros navais, siderurgia ou até empresas que nos habituámos a ver exportadoras, como a Sorefame, ou desapareceram, ou perderam importância ou caíram em mãos estrangeiras.   Algumas, como a CIMPOR, mantêm o centro de decisão em Portugal (apesar de ser detida, em 100%, por capitais brasileiros).   Outras nem isso.   Opções ideológicas à parte, o Estado não pode ser culpado de tudo nem tem de ser empresário.   O raquitismo das empresas nacionais e a necessidade de liquidez do País, quer no sector público quer no privado, é que representam as verdadeiras causas da "venda de Portugal" ao desbarato.   A tudo isto não foi alheio o aliciamento de governos incautos e sedentos de votos pelo dinheiro fácil do crédito internacional, aliado à estratégia norte-europeia de desmantelamento do sector produtivo dos países com economias menos pujantes.   O endividamento subsequente levaria à venda baratinha do que era apetecível nesses países (um cenário que também vimos na Grécia) a grandes grupos internacionais.   Parece um plano...

O que é curioso é que os compradores nem sempre vêm de onde se espera.   Por exemplo, os 4,7 mil milhões de euros das privatizações de EDP (2 690 milhões), da REN (387 milhões) e da Caixa Seguros (1 632 milhões) provêm de grupos chineses, respectivamente a Three Gorges, a State Grid (agora também interessada na EFACEC) e a Fosun, que se tornaram, assim, os principais animadores das privatizações portuguesas.   Por ironia, estas empresas são todas imensas golden-shares do Estado chinês, que também aprecia o funcionamento do mercado - mas à sua maneira...

Mas voltemos ao velho argumento:   deixar que o mercado e a concorrência funcionem.   De acordo.   Mas, para o economista Ricardo Cabral, professor da Universidade da Madeira "a perspectiva de um governo não deve ser a de um mero accionista".   Dado o seu peso, o Estado tem de agir em prol do "interesse público".   E de acordo com o investigador, os governos devem ter em conta também os outros impactos na globalidade da economia.
Mas não tem sido isso que tem acontecido, já que as avaliações são feitas a olhar para o "valor accionista" das empresas, destaca Cabral, criticando alguns aspectos dos programas de privatização dos últimos anos.   "Não parece que tenha sido um grande sucesso", afirma.  "Privatizámos quase tudo, nas últimas décadas e não ganhámos muito com as privatizações no seu todo.   As receitas das privatizações não têm contribuído para reduzir a dívida pública, que aumentou.  E a agravar isso, temos, neste momento, menos instrumentos para a gestão económica do País", com a maior parte das empresas privatizadas a terem ficado nas mãos de não residentes.

Também se tem falado, com preocupação, de eventuais aumentos pós-privatização dos preçários dessas empresas.   Sobretudo daquelas que possam ter impactos importantes na competitividade de sectores estratégicos da Economia, como o turismo e os exportadores.  Disso é emblemático o caso da ANA - Aeroportos de Portugal, cuja operação foi concessionada, há dois anos, aos franceses da Vinci, e cujos aumentos sucessivos das taxas aeroportuárias têm suscitado polémica.   Desde que foi privatizada, a ANA já aumentou quatro vezes as suas taxas e tenciona continuar a fazê-lo:   até 2022 as taxas deverão sofrer incrementos de mais de 20 por cento.   O presidente da Ryan Air, Michael O'Leary, já afirmou que o modelo de taxação praticado pela operadora é caraterístico de "regimes comunistas".   Os responsáveis da ANA deverão ir esta quinta-feira, 15, ao Parlamento prestar esclarecimentos sobre os polémicos aumentos.

Para Francisco Louçã, "Portugal está transformado em sucata", mas, mesmo assim, e recordando que o crédito às empresas caiu 40% em agosto, "o Estado devia ter poder de regulação, mesmo depois do 'assucatamento'".   A concessão de crédito depende da banca mas não tem sido possível usar esta ferramenta para bombear sangue para a economia nacional.   Até mesmo o banco público, a Caixa Geral de Depósitos, por ter o menino do BPN nos braços, perdeu, em parte, essa capacidade.

Quanto vale a TAP ?

João Cravinho, que foi ministro do Equipamento, adverte:   "Quando a Mota Engil 'soltar' a Martifer, esta vai cair nos braços de alguém..."   E volta a defender a dama do malogrado novo aeroporto:   "A TAP vale o que quiserem dar. Mataram a TAP no dia em que descartaram a hipótese de construir um aeroporto capaz de receber mais 20 ou 30 voos."
 Se um novo aeroporto era um preço um bocado elevado a pagar pela valorização da companhia aérea nacional, esta bem pode ser, no entanto, o exemplo de uma empresa com um preço impossível de medir em euros.   A TAP é, mal comparado, como o hino ou a bandeira, um símbolo nacional, junto das comunidades e da lusofonia.   A ponte aérea dos retornados, em 1975, nunca teria sido possível se o Estado não tivesse à sua disposição este instrumento.   Essa componente de defesa nacional mantém-se:   quem valeria aos 200 mil nacionais em Angola, se houvesse necessidade de uma evacuação rápida?

Mas o factor psicológico, simbólico ou de soberania não é o único a contabilizar, nestas contas imensuráveis.   Nas contas de Ricardo Cabral, a TAP gera um valor de entrada anual de divisas em torno dos 27,5 mil milhões de euros - 13% da dívida externa líquida.   Cerca de três quartos da operação é vendida no estrangeiro.   Com o País ainda à beira da bancarrota, com um grave défice da balança de pagamentos e ainda sem a ameaça de saída do euro dissipada, "as divisas geradas direta e indiretamente pela TAP são preciosas".   À luz destes argumentos, a serem pertinentes, a TAP já não seria uma joia da coroa ou um anel:   seria o próprio dedo indicador.

Com quatro interessados (um consórcio entre o português Miguel Pais do Amaral, Frank Lorenzo, ex-proprietário da Continental Airlines, e o grupo Barraqueiro, os espanhóis da Globalia, os brasileiros da Azul e Gérman Efromovich), o processo não avança.   Uma das razões será a falta de consenso no seio do próprio Governo, quanto à participação a vender e em relação ao timing da respectiva alienação.   E esta história, a acabar como a da PT, também dava um filme.

Tirem-nos dele.