sábado, 15 de julho de 2017

OS PSICOPATAS DOMÉSTICOS NA DESTRUIÇÃO DAS NOSSAS RELAÇÕES




Os psicopatas integrados não sentem empatia, compaixão ou remorso.
Sem sentimentos, são mentirosos e manipuladores, até nas relações amorosas.
Os psicopatas integrados parecem pessoas normais até os destruírem. 
(Iñaki Piñuel).
nós e

Iñaki Piñuel é doutorado em Psicologia, é psico-terapeuta e investigador especializado na
avaliação e no tratamento das vítimas de abuso psicológico e de psicopatas integrados.



Nem todos os psicopatas têm um desejo mórbido de tirar vidas, embora haja aqueles que conseguem destruí-las apenas com recurso à violência psicológica e emocional.   Iñaki Piñuel chama-lhes “psicopatas integrados” ou “psicopatas domésticos”.  O psico-terapeuta, professor universitário e investigador espanhol é o autor do novo livro   “Amor Zero - Como sobreviver a uma relação com um psicopata emocional” (editora Esfera dos Livros).

Piñuel, que passou os últimos 25 anos a avaliar e a tratar casos de vítimas de psicopatas integrados, quer alertar as pessoas para o facto de estas personagens narcisistas, mentirosas e manipuladoras estarem entre nós:  segundo o especialista, podem ser os nossos vizinhos, amigos e até mesmo os(as) nossos(as) companheiros(as).  Através de uma linguagem assertiva e um tanto ou quanto alarmista, o  conferencista explica que “o psicopata integrado não tem sentimentos ou remorsos, é frio e eficaz quando a depredar uma vítima, sabendo bem usar a sedução para se aproximar das pessoas que lhe interessam”.

O assunto é, para Iñaki Piñuel, muito sério, tão sério que o especialista defende que a única solução para as vítimas destes predadores é o afastamento total, uma vez que, não sendo doentes mentais, os psicopatas não têm cura: A única opção é sair.   Não se trata de uma doença clínica e o problema não tem tratamento;   a terapia funciona ao contrário, com o psicopata a aprender muitas coisas novas para manipular mais e melhor as suas vítimas.  Eles (ou elas), os psicopatas, não têm moral, não têm consciência.  Extremamente cruéis, não têm a capacidade de sentir compaixão pelas suas vítimas.”


1 - Chama-lhes psicopatas integrados ou domésticos.  Os psicopatas não estão só nos filmes mas também entre nós.   Somos ignorantes quanto à sua existência?

“As pessoas normais não sabem que a maior parte dos psicopatas não são aqueles que estão na prisão, não são os assassinos, são antes os psicopatas a quem chamamos de normalizados ou integrados.  O psicopata integrado é uma pessoa integrada na sociedade, que faz uma vida aparentemente normal, à excepção de que não tem emoções, não tem sentimentos de culpa e, portanto, é muito frio e eficaz quando se propõe a depredar uma vítima.”  



2 - Escreve que são parasitas progressivos.  Em que sentido?

“Progressivos porque a sua forma de entrar numa relação é a pouco e pouco, sem nunca mostrar a sua verdadeira natureza.  O problema é que a vítima apaixona-se, fica seduzida - porque é isso o que estes psicopatas fazem, eles seduzem.  
Na segunda fase, que é a fase do desprezo, a pessoa que vive numa relação com um psicopata fica completamente destruída.  O problema é que as pessoas não têm informação específica e desconhecem a existência deste tipo de personalidade.  Não têm informação que explique como uma pessoa pode ficar destruída sem se dar conta por causa de uma pessoa encantadora, que não precisa de a maltratar fisicamente porque fá-lo psicologicamente.  Isso pode gerar um quadro psicológico de stress pós-traumático, são os quadros mais habituais.”


3 - Quais são as principais características de um psicopata?

“A Ausência de emoções reais, a falta de empatia, a ausência de medo e de ansiedade, uma maior probabilidade de trair os seus parceiros.  Os(as) psicopatas são, sobretudo, pessoas que vivem dos outros, são parasitas.  Sabem muito bem como posicionarem-se enquanto objecto de desejo de toda a gente.  Têm a capacidade de manipular os outros e, se têm um problema, seduzem ou compram as pessoas que necessitam ter a seu lado.”


4 - É fácil identificar um psicopata integrado?

“Não.  Não é fácil porque um psicopata não parece um doente mental (porque não o é), ao invés parece uma pessoa normal e encantadora.  Se não conhecermos a existência deste problema teremos muita probabilidade de nos convertermos na sua vítima.”


5 - Todas as pessoas com um narcisismo extremo são potenciais psicopatas?

“Não, mas todos os(as) psicopatas são narcisistas extremos ou malignos.  Uma pessoa com um grande nível de narcisismo não é um psicopata, mas é certo que todos os psicopatas são narcisistas extremos.”
“Uma das coisas que têm em comum os psicopatas criminosos detidos e estes psicopatas domésticos integrados na sociedade é o facto de ambos os tipos serem megalómanos, e possuírem um profundo egocentrismo e uma predisposição para endeusar-se.  Em suma, um narcisismo extremo e maligno.” (pág. 25)


6 - O psicopata tem noção do que é?

“Nem sempre sabem que são psicopatas, mas sabem que são diferentes dos outros.  Sabem que não sentem medo, empatia ou compaixão e, portanto, sabem que têm grandes capacidades de fazer com que os outros façam o que eles querem.  É uma arte, eles(elas) sabem que são capazes de manipular os outros mas nem sempre sabem que a isso se chama “psicopata”.


7 - Sendo ele egoísta por natureza, o psicopata gosta de si próprio?

“Sim.  Ele(ela) tem um narcisismo extremo, precisa de adoração e de seduzir as pessoas, de manipular os outros.  Os psicopatas vivem do trabalho dos outros, do dinheiro e da energia dos outros.  Consomem a energia das suas vítimas, esvaziam-nas.”


8 - O psicopata manipula o outro porque tem baixa auto-estima?

Não.  O(A) psicopata tem uma ideia inflacionada de si mesmo, uma grande consideração por si mesmo e um enorme ego que não é real.   Precisam constantemente da adoração dos outros.”


9 - Um psicopata pode amar?

“Não.  Ele(ela) não ama ninguém, nem os parceiros nem os filhos.  Manipulam-nos e seduzem-nos, mas não os amam.  Não podem amar porque amar é dar, e eles querem sempre receber, à procura de conseguir obter mais dinheiro, adoração ou sexo.   São parasitas puros.  É preciso dizer às vítimas que ali nunca houve amor.”


10 - As vítimas são sobretudo pessoas com valores e consciência moral.  Porquê?

“São pessoas com valores morais, são boas pessoas.  Para os(as) psicopatas as boas pessoas estão sempre dispostas a perdoar, a começar de novo, a ver o outro lado das piores atrocidades.  Isto ajuda muito um psicopata.”


11 - A baixa auto-estima é um requisito para ser-se vítima de um psicopata?

“Muitas vezes as vítimas têm baixa auto-estima, mas nem sempre é assim.  Há pessoas completamente normais, com uma auto-estima normal, que ficam destruídas devido a uma relação com um(uma) psicopata - perdem a auto-estima e o respeito por si mesmas.  O que acontece é que os psicopatas aproveitam-se da vulnerabilidade humana, seja essa uma vulnerabilidade social ou um momento mau na vida de uma pessoa.”


12 - No final, as vítimas ficam convencidas de que a culpa é sua?

“Claro.  Esse é o problema.  Os psicopatas utilizam uma estratégia que se chama “jogo da piedade” quando se posicionam como vítimas das suas vítimas.  Isto significa que são perfeitamente capazes de simular que são eles(elas) as vítimas, pelo que as vítimas [reais] sentem-se culpadas por serem a causa da ruptura.  As vítimas sentem-se culpadas por causa do jogo de manipulação, não por serem estúpidas.”


13 - Entre a vítima e um psicopata estabelece-se um vínculo traumático viciante.  Porquê é que é tão difícil desatar estes laços emocionais?

“O maltrato é aditivo porque gera um mecanismo de repetição.  A vítima que é maltratada interioriza os maus-tratos e sente-se culpada por isso.  A vítima sente-se responsável pelo problema, acredita que não é bom(boa) companheiro/a, e é absolutamente ignorante do processo de manipulação do psicopata.  Quanto mais tempo durar a relação, menos provável é a capacidade de a vítima cortar com o(a) psicopata.  É, por isso, um vínculo aditivo.  A vítima esquece-se das coisas más e apenas se recorda da fase do namoro e da sedução.  Todo o contacto com um psicopata gera mais sofrimento, mais danos para a vítima e, sobretudo, mais oportunidades para o psicopata.”


14 - Quais as técnicas de manipulação mais usuais de um psicopata?

A manipulação através da sedução e o bombardeamento amoroso.  
Numa primeira fase bombardeiam as vítimas de amor.  Depois usam a culpabilização.  A terceira técnica é a triangulação:  falam de terceiras ou quartas pessoas - que alegadamente se interessam pelo psicopata - de modo a criar competição com a vítima.  Em suma, todo o tipo de estratégias que procurem manipular e criar nas vítimas um mecanismo de adição.”


15 - Como é que se sai deste buraco negro?

“Primeiro é preciso compreender que este não é um problema de casal, não é um divórcio.  Estamos antes perante uma pessoa que é um predador humano, um lobo com pele de cordeiro.  É muito importante que a vítima compreenda isso.  E é muito importante reconhecer os danos psicológicos nas vítimas - são danos do tipo stress pós-traumático, que precisam de ser tratados com técnicas específicas.  
É um problema muito especial, não é um problema de casal nem de maus-tratos físicos, até porque é rara a vez que os psicopatas maltratam fisicamente as suas vítimas (não precisam de o fazer).  A vítima precisa de saber que não tem culpa - e não digo isto para animá-la, digo porque é verdade.”


16 - A forma como escreveu o livro e fala sobre assunto parece um pouco agressiva…

Este é um problema muito grave."  
"Uma das piores situações que o ser humano pode atravessar na sua vida é estar casado ou junto com um/uma psicopata.  
O problema é grave por ser tão desconhecido.  As pessoas não identificam o problema, pensam apenas que estão perante um mal entendido, um problema de comunicação ou uma pessoa difícil.  Não! - estamos perante um psicopata e o psicopata é alguém que não tem cura, não há esperança para ele.  A única opção é sair.  
Não se trata de uma doença clínica e este problema não tem tratamento:  a terapia funciona ao contrário, com o psicopata a aprender muitas coisas novas para manipular mais e melhor a suas vítimas.  
Eles/elas, os psicopatas, não têm moral, não têm consciência.   E não têm a capacidade de sentir compaixão ou remorso pelas suas vítimas.





domingo, 30 de abril de 2017

Desumano é equivaler o cão ao homem!

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Ao equivaler o cão ao homem, o animalismo dessacraliza a vida humana, dessacraliza os direitos humanos, atira a vida humana para o estado da natureza. 
Os exemplos desta desumanidade já são às dezenas.


Os cães não são coisas”, “quem não gosta de animais não é boa pessoa”, “eles (os cães) vêem sempre quem é boa ou má pessoa”, “gosto tanto dos meus cães como dos meus filhos”, “ter um cão ensinou-me a ser pai/mãe”, “os animais têm a mesma dignidade dos homens” e, claro, “os animais são mais humanos do que os próprios homens”.   Estas e outras frases já fazem parte da poluição sonora que nos apascenta.   O que até é compreensível. 

Este animalismo pagão é o reflexo de uma sociedade de gente sozinha, triste e com enorme doses de ressentimento por tratar.

O animalista é quase sempre uma pessoa que respira raiva contra outras pessoas, contra o ex-marido, contra a ex-mulher, contra a nora, contra a humanidade em geral, esse vírus que consome a mãe natureza. O alegado amor pelos animais é só uma forma de sublimar esse ódio galopante.

Somos uma sociedade de divórcios, de relações instáveis, de filhos únicos, de idosos solitários que passam meses sem ver os filhos ou netos. Não há primos ou irmãos, não há tios ou tias, não há netos ou avós, não há maridos e mulheres. Neste deserto emocional, é evidente que muitas pessoas transferem as emoções para os animais; cães e gatos funcionam como espelhos passivos onde são projectados afectos e ressentimentos. “Os cães são fiéis, ao contrário das pessoas”. Tudo isto é compreensível, sem dúvida, mas há limites. 

E este animalismo já passou há muito os limites morais de uma sociedade civilizada.

Quem é que recebe a maior onda de indignação?  O toureiro que fere um touro ou o dono do rottweiller ou pittbul que mata um bebé?  A resposta é o primeiro.  E o poço é ainda mais fundo.  O cão recebe uma campanha de compreensão na internet.  As pessoas lembram-se do nome do cão assassino e não do nome do bebé assassinado.   A humanização do animal (o abate é visto como um “assassínio”) causa assim a desumanização do bebé, da criança, do ser humano.

O espantoso é que esta tribo animalista equipara moralmente uma pessoa a um cão com uma vaidade moral que faz lembrar os marxistas dos anos 50. Julgam-se superiores, acham que são a vanguarda moral, julgam-se super-humanos. E, tal como as ideologias do passado, esta hubris esconde a sua intrínseca desumanidade.

Ao equivaler o cão ao homem, o animalismo dessacraliza a vida humana, dessacraliza os direitos humanos, atira a vida humana para o estado da natureza. Os exemplos desta desumanidade já são às dezenas. O parlamento que criminaliza o abandono de animais é o mesmo parlamento que recusa criminalizar o abandono de idosos. O PAN recusa barrigas de aluguer no gado suíno mas apoia as barrigas de aluguer em pessoas. 

Começa a ganhar força a ideia de que um animal “consciente” tem mais valor do que um ser humano inconsciente. Exagero? Lembrem-se das declarações do líder do PAN: “há mais características humanas num chimpanzé ou num cão do que num ser humano em coma”. Portanto, se seguíssemos esta lógica, teríamos de dizer que o abate de um cão é mais indecente do que a eutanásia de um homem em coma. Se repararem bem, já lá estamos, já vivemos nesta lógica: o ar do tempo defende a eutanásia enquanto grita histericamente contra o “assassínio” de um cão.

Rir ou chorar? A sociedade que se cala ante o aborto, ante a eutanásia, ante a eugenia cada vez mais aberta, ante a nanotecnologia que cria um futuro pós-humano, ante as barrigas de aluguer que transformam bebés em bens que se podem comprar, enfim, esta sociedade que transforma o humano numa coisa é a mesmíssima sociedade que grita histérica “os animais não são coisas”.


(Henrique Raposo, Renascença - 28 abril 2017)