sexta-feira, 28 de novembro de 2014

UM FINGIDOR






Nunca gostei da personagem política “José Sócrates”, desde a campanha para secretário-geral do PS (em que ele prometeu não aumentar impostos que, de facto, aumentou) até à sua ascensão a primeiro-ministro, muito ajudado por Pedro Santana Lopes e pela reputação de autoritário que entretanto adquirira.

Não tranquiliza particularmente ser governado por um indivíduo que se descreve a si mesmo como um “animal feroz”, nem por um indivíduo que prefere a força política e legal à persuasão e ao compromisso. Se o tratam mal a ele agora, seria bom pensar na gente que ele tratou mal quando podia: adversários, serventes, jornalistas, toda a gente que tinha de o aturar por necessidade ou convicção. Sócrates florescia no meio do que foi a sufocação do seu mandato.

O dr. António Costa quer hoje separar os sarilhos de um alegado caso criminal do seu antigo mentor da política do Partido Socialista e do seu plano para salvar a Pátria. O que seria razoável, se José Sócrates não encarnasse em toda a sua pessoa o pior do PS: o ressentimento social, o narcisismo, a mediocridade, o prazer de mandar. Claro que, como qualquer arrivista, Sócrates se enganou sempre. Começou pelos brilhantíssimos fatos que ostentava em público, sem jamais lhe ocorrer se as pessoas que se vestiam “bem” se vestiam assim. Veio a seguir a “licenciatura” da Universidade Independente, como se aquele papel valesse alguma coisa para alguém. E a casa da Rua Braamcamp, que é o exacto contrário da discrição e do conforto e último sítio em que um político transitoriamente reformado se iria meter.

Depois de sair do Governo e do partido, Sócrates mostrava a cada passo a sua falsidade, não a dos negócios, que não interessam aqui, mas da notabilidade pública, por que desejava que o tomassem. Resolveu estudar em Paris, para se vingar da humilhação do Instituto de Engenharia e da Universidade Independente, e resolveu fazer um mestrado em “Sciences Po”, sem perceber que o mestrado é uma prova escolar de um estatuto irrisório. Em Paris, viveu no “seizième”, o bairro “fino”, como ele achava que lhe competia, e, de volta a Lisboa, correu para a RTP, onde perorava semanalmente para não o esquecerem: duas decisões ridículas que só serviram para o prejudicar, embora estivessem no seu carácter. Como o resto do país, não sei nem me cabe saber se o prenderam justa e justificadamente. Sei – e, para mim, chega – que o homem é um fingidor.

(Vasco Pulido Valente, PÚBLICO - 28/11/2014)


quinta-feira, 27 de novembro de 2014

La chute d’un «opportuniste sans idéologie»






FRANÇOIS MUSSEAU MADRID, 26 NOVEMBRE 2014



L’ex-leader socialiste est incarcéré depuis mardi dans une prison qu’il avait inaugurée lorsqu’il était Premier ministre du Portugal.

«L’incomparable José Sócrates», ironise l’éditorialiste du quotidien Publico José Miguel Tavares. «The Special One», s’amusent plusieurs commentateurs, appliquant à celui qui dirigea le Portugal entre 2005 et 2011 le surnom d’ordinaire attribué au sulfureux entraîneur de foot José Mourinho. Après avoir été longtemps prudents, voire trop respectueux avec Sócrates, Sol ou Correio Da Manha exceptés, les médias portugais se livrent désormais au grand déballage contre celui qui a créé la sensation, lorsqu’il fut interpellé à l’aéroport de Lisbonne, vendredi.

Motif de cette détention inédite : «fraude fiscale» et surtout «corruption» et«blanchiment de capitaux». Le montant des sommes qu’aurait détournées Socrates n’est pas connu, mais la presse nationale parle de dizaines de millions. Depuis environ un an, la brigade financière portugaise, la DCIAP s’était étonnée de son train de vie à Paris, où il réside : un appartement de 2,8 millions d’euros, la fréquentation de restaurants de luxe… Des écoutes téléphoniques auraient fait le reste.

«UN DEGRÉ SUPPLÉMENTAIRE D’IMMORALITÉ DANS LA VIE PUBLIQUE»

L’ancien leader socialiste, qui en mai 2011 avait démissionné alors que son pays était au bord de la faillite financière, a été placé mardi en prison préventive à Evora, dans un de ces établissements modèles qu’il avait lui-même inauguré alors qu’il était le fringuant Premier ministre ! Chaque jour, déjà écœurés par une série de scandales en cours (tous liés à la «décennie heureuse» de l’argent facile, 1995-2005), les Portugais découvrent le détail des forts soupçons qui pèsent sur José Sócrates – et ce, même si le secret de l’instruction a été déclaré par les magistrats.

«Son incarcération, c’est la cerise sur le gâteau d’un système corrompu, souligne un présentateur de la RTP, la télé publique. L’affaire Sócrates correspond à un degré supplémentaire d’immoralité dans la vie publique. Une sorte d’électron libre.» Avec, comme alter ego dans le monde financier, son ex-compère Ricardo Salgado, l’ancien président de la banque Espírito Santo, lui aussi interpellé, en juillet, pour blanchiment de capitaux.

HOMME DE PAILLE

Officiellement, lorsqu’il déménage à Paris au printemps 2011, José Sócrates prend une retraite politique «bien méritée», celle d’un honnête citoyen qui a servi son pays«le mieux possible». Désireux de «réfléchir et de prendre le temps», il s’inscrit à Sciences-Po pour faire une thèse doctorale. Et, tel un observateur assagi au-dessus de la mêlée, participe à des émissions de la RTP pour commenter la vie politique portugaise. Il dit alors n’avoir qu’un seul compte bancaire et, pour louer un appartement dans la capitale française, affirme recourir à un prêt. Un politicien modèle, en somme, qui a su s’arrêter à temps et que la cupidité n’aurait pas rongé.

Sauf que, de source judiciaire, ce qui a motivé son arrestation raconte une tout autre histoire. Son chauffeur João Perna, lui aussi interpellé, faisait souvent le trajet Lisbonne-Paris en voiture pour lui remettre de grosses quantités d’argent en liquide. A partir de janvier 2013, José Sócrates est consultant pour la multinationale pharmaceutique Octapharma AG, pour laquelle il touche 12 000 euros par mois. Mais, selon le quotidien Sol, la multinationale lui versait 12 000 euros supplémentaires correspondant en réalité à son propre argent issu d’une société offshore mise au nom de son ami d’enfance, l’entrepreneur Carlos Santos Silva. Ce dernier, tout comme son épouse, aurait servi d’homme de paille dans le cadre d’un réseau sophistiqué de sociétés-écrans contrôlés par Sócrates.

LEADER LOUCHE, «TOUJOURS BORDERLINE»

Lorsqu’il était en fonction, l’ancien chef du gouvernement a révolutionné la vie politique portugaise. Sanguin, autoritaire, des manières un peu bling-bling à la Sarkozy, il a su dépoussiérer une administration ankylosée, voire inefficace, et obtenir, lors de son premier mandat, des résultats probants. Mais, en parallèle, José Sócrates fut ce leader louche, ce «produit médiatique» ou «politicien Armani» (dixitle Publico pour fustiger son côté gauche caviar), impliqué dans maints scandales et parvenant à chaque fois à se sortir des griffes de la justice. «Depuis les origines, il a été ce jeune loup, opportuniste, sans idéologie, obsédé par l’escalade des échelons vers le pouvoir suprême, toujours borderline», dit l’historien Fernando Rosas. Ancien militant du parti de droite, le PSD, passé chez les socialistes en 1981, cet admirateur de Tony Blair a connu un parcours peu limpide. Il y a d’ailleurs de fortes chances que son diplôme d’ingénieur civil, obtenu en 1980, soit un faux.



quarta-feira, 22 de outubro de 2014

PORTUGAL ESTÁ À VENDA !






O caso PT é o epílogo de uma longa história de privatizações, gestão deficiente, ganância e alienações ao desbarato. A crise e a falta de liquidez do País fazem o resto. Ninguém está inocente, nem o Estado nem os privados. Veja um filme do qual não conseguirá sair:


A vida da PT (Portugal Telecom) dava um filme.   Em 1999, data de entrada do "gestor modelo" Zeinal Bava na empresa, ela valia 11 380 milhões de euros.   No ano seguinte, processa-se a privatização e o Estado fica com 500 ações douradas (de que abriria mão, com a vinda da troika, em 2011).   Essa golden share viria a ser importante para travar a OPA do Grupo Sonae em 2007, com o argumento do risco de posterior venda a estrangeiros...   Começa a aposta no Brasil e, em 2004, a empresa atinge o seu zénite, com um valor em bolsa de cerca de 11 400 milhões de euros.   Foi há dez anos.   Hoje, valerá menos de 10 mil milhões.   Desvalorizou-se, numa década, o equivalente a uma verba superior ao que o Estado paga, por ano, em juros da dívida pública.   Ou, se quisermos estabelecer outra comparação, a perda de valor da PT ultrapassa o custo, por ano, do Serviço Nacional de Saúde.   Mais, enfim, do que o total do défice das contas públicas previsto para 2014.   Como foi possível?

O pesadelo aconteceu devido ao facto de Portugal estar a ser vendido a retalho e a preço de saldo.   A história da PT é o epílogo de um longo período de depauperamento da economia nacional.   A PT era uma empresa de vanguarda, um exemplo de inovação, agressividade comercial e internacionalização, que a ganância de alguns acionistas e um acto de gestão terceiro-mundista - a inexplicável exposição ao Grupo GES - deitou abaixo.   Atónitos, os portugueses constatam que, afinal, a empresa terá sido gerida, nos últimos anos, de lápis na orelha.   Mesmo assim, Zeinal Bava, depois de ter "entregue" a PT à Oi, sai do grupo brasileiro com uma indemnização de (valores não desmentidos) 5,4 milhões de euros.

Engarrafar e vender o ar

Porque deixámos que quase todos os sectores ditos estratégicos (o que quer que isso seja) caíssem em mãos estrangeiras?  A responsabilidade deve ser assacada ao Estado - e aos governos PS, PSD e CDS - ou, também, aos privados?   Quem não se lembra da venda do Banco Totta & Açores ao Grupo Champalimaud e do seu desaparecimento nas goelas do gigante espanhol Santander?   Onde param as boas intenções do grupo de empresários que, patrioticamente, produziram documentos a jurar velar pela manutenção dos centros de decisão em Portugal?   Pois não foram eles os primeiros a vender tudo e mais alguma coisa, pela melhor oferta?

Para João Cravinho, antes de haver sectores estratégicos "teria de haver estratégia", coisa que, na opinião do ex-ministro socialista dos governos Guterres, "não existe, nem no sector público nem no sector privado".   Mais, o alheamento das autoridades deve-se à teoria de que "não faz sentido ter uma estratégia", quando tudo se resume a questões "que se resolvem no e pelo mercado, deixando que as leis da concorrência funcionem".
E, no entanto, a lei dos sectores estratégicos, publicada a 15 de Setembro, até parece salvaguardar o essencial, talvez tarde de mais:   assegurar os "activos estratégicos essenciais para garantir a defesa e segurança nacionais e segurança do aprovisionamento do País em serviços fundamentais para o interesse nacional, nas áreas da energias, dos transportes e comunicações, enquanto interesses fundamentais de segurança pública".   

Mas basta pensar na privatização, ou, para sermos mais justos, na concessão a privados da exploração das Águas de Portugal, para concluir que só o ar que se respira não está privatizado porque ainda não é possível ser consumido engarrafado.

Cimentos, banca, estaleiros navais, siderurgia ou até empresas que nos habituámos a ver exportadoras, como a Sorefame, ou desapareceram, ou perderam importância ou caíram em mãos estrangeiras.   Algumas, como a CIMPOR, mantêm o centro de decisão em Portugal (apesar de ser detida, em 100%, por capitais brasileiros).   Outras nem isso.   Opções ideológicas à parte, o Estado não pode ser culpado de tudo nem tem de ser empresário.   O raquitismo das empresas nacionais e a necessidade de liquidez do País, quer no sector público quer no privado, é que representam as verdadeiras causas da "venda de Portugal" ao desbarato.   A tudo isto não foi alheio o aliciamento de governos incautos e sedentos de votos pelo dinheiro fácil do crédito internacional, aliado à estratégia norte-europeia de desmantelamento do sector produtivo dos países com economias menos pujantes.   O endividamento subsequente levaria à venda baratinha do que era apetecível nesses países (um cenário que também vimos na Grécia) a grandes grupos internacionais.   Parece um plano...

O que é curioso é que os compradores nem sempre vêm de onde se espera.   Por exemplo, os 4,7 mil milhões de euros das privatizações de EDP (2 690 milhões), da REN (387 milhões) e da Caixa Seguros (1 632 milhões) provêm de grupos chineses, respectivamente a Three Gorges, a State Grid (agora também interessada na EFACEC) e a Fosun, que se tornaram, assim, os principais animadores das privatizações portuguesas.   Por ironia, estas empresas são todas imensas golden-shares do Estado chinês, que também aprecia o funcionamento do mercado - mas à sua maneira...

Mas voltemos ao velho argumento:   deixar que o mercado e a concorrência funcionem.   De acordo.   Mas, para o economista Ricardo Cabral, professor da Universidade da Madeira "a perspectiva de um governo não deve ser a de um mero accionista".   Dado o seu peso, o Estado tem de agir em prol do "interesse público".   E de acordo com o investigador, os governos devem ter em conta também os outros impactos na globalidade da economia.
Mas não tem sido isso que tem acontecido, já que as avaliações são feitas a olhar para o "valor accionista" das empresas, destaca Cabral, criticando alguns aspectos dos programas de privatização dos últimos anos.   "Não parece que tenha sido um grande sucesso", afirma.  "Privatizámos quase tudo, nas últimas décadas e não ganhámos muito com as privatizações no seu todo.   As receitas das privatizações não têm contribuído para reduzir a dívida pública, que aumentou.  E a agravar isso, temos, neste momento, menos instrumentos para a gestão económica do País", com a maior parte das empresas privatizadas a terem ficado nas mãos de não residentes.

Também se tem falado, com preocupação, de eventuais aumentos pós-privatização dos preçários dessas empresas.   Sobretudo daquelas que possam ter impactos importantes na competitividade de sectores estratégicos da Economia, como o turismo e os exportadores.  Disso é emblemático o caso da ANA - Aeroportos de Portugal, cuja operação foi concessionada, há dois anos, aos franceses da Vinci, e cujos aumentos sucessivos das taxas aeroportuárias têm suscitado polémica.   Desde que foi privatizada, a ANA já aumentou quatro vezes as suas taxas e tenciona continuar a fazê-lo:   até 2022 as taxas deverão sofrer incrementos de mais de 20 por cento.   O presidente da Ryan Air, Michael O'Leary, já afirmou que o modelo de taxação praticado pela operadora é caraterístico de "regimes comunistas".   Os responsáveis da ANA deverão ir esta quinta-feira, 15, ao Parlamento prestar esclarecimentos sobre os polémicos aumentos.

Para Francisco Louçã, "Portugal está transformado em sucata", mas, mesmo assim, e recordando que o crédito às empresas caiu 40% em agosto, "o Estado devia ter poder de regulação, mesmo depois do 'assucatamento'".   A concessão de crédito depende da banca mas não tem sido possível usar esta ferramenta para bombear sangue para a economia nacional.   Até mesmo o banco público, a Caixa Geral de Depósitos, por ter o menino do BPN nos braços, perdeu, em parte, essa capacidade.

Quanto vale a TAP ?

João Cravinho, que foi ministro do Equipamento, adverte:   "Quando a Mota Engil 'soltar' a Martifer, esta vai cair nos braços de alguém..."   E volta a defender a dama do malogrado novo aeroporto:   "A TAP vale o que quiserem dar. Mataram a TAP no dia em que descartaram a hipótese de construir um aeroporto capaz de receber mais 20 ou 30 voos."
 Se um novo aeroporto era um preço um bocado elevado a pagar pela valorização da companhia aérea nacional, esta bem pode ser, no entanto, o exemplo de uma empresa com um preço impossível de medir em euros.   A TAP é, mal comparado, como o hino ou a bandeira, um símbolo nacional, junto das comunidades e da lusofonia.   A ponte aérea dos retornados, em 1975, nunca teria sido possível se o Estado não tivesse à sua disposição este instrumento.   Essa componente de defesa nacional mantém-se:   quem valeria aos 200 mil nacionais em Angola, se houvesse necessidade de uma evacuação rápida?

Mas o factor psicológico, simbólico ou de soberania não é o único a contabilizar, nestas contas imensuráveis.   Nas contas de Ricardo Cabral, a TAP gera um valor de entrada anual de divisas em torno dos 27,5 mil milhões de euros - 13% da dívida externa líquida.   Cerca de três quartos da operação é vendida no estrangeiro.   Com o País ainda à beira da bancarrota, com um grave défice da balança de pagamentos e ainda sem a ameaça de saída do euro dissipada, "as divisas geradas direta e indiretamente pela TAP são preciosas".   À luz destes argumentos, a serem pertinentes, a TAP já não seria uma joia da coroa ou um anel:   seria o próprio dedo indicador.

Com quatro interessados (um consórcio entre o português Miguel Pais do Amaral, Frank Lorenzo, ex-proprietário da Continental Airlines, e o grupo Barraqueiro, os espanhóis da Globalia, os brasileiros da Azul e Gérman Efromovich), o processo não avança.   Uma das razões será a falta de consenso no seio do próprio Governo, quanto à participação a vender e em relação ao timing da respectiva alienação.   E esta história, a acabar como a da PT, também dava um filme.

Tirem-nos dele.


segunda-feira, 4 de agosto de 2014

NOVO BANCO... FRAUDE VELHA !






Portugal assistiu ontem a um evento raro.   O Banco de Portugal tentou convencer o país, — e o mundo financeiro —, da suficiência de um programa de resolução para o Banco Espírito Santo.   Uso a expressão “tentar convencer” sem segundas intenções:  sendo a confiança o elemento essencial na relação entre os clientes e o sistema bancário, o trabalho de um banqueiro central é sempre um trabalho de persuasão.

Como tal, só o tempo poderá dizer se o esforço de persuasão de hoje funcionou ou não.   Se nos próximos dias os depositantes do antigo Banco Espírito Santo, agora crismado de Novo Banco, não forem alarmados por novos esqueletos no armário, pode ser que o banco central consiga superar a primeira prova deste exercício de alto risco.   O resto é bem mais complicado e compete ao governo;   cá estaremos para ver se poderá cumprir-se a promessa de o caso BES não contaminar a dívida pública e não prejudicar os contribuintes portugueses.   A divisão do BES entre “banco mau” e “banco bom”, com todas as complexidades e incertezas que ela oculta, torna tudo isto muito duvidoso.

O governador do Banco de Portugal, Carlos Costa, foi forçado a admitir que a gestão do Banco Espírito Santo foi muito pouco católica:  nos últimos tempos, e provavelmente bem antes disso, a administração do banco, e do grupo familiar em que ele se inseria, incorreram numa série de fraudes e ocultações.  Depreende-se claramente do que disse Carlos Costa que haverá responsabilidades criminais a apurar.  (podemos acreditar nisso???...)

Apesar do nome do “banco bom”, Novo Banco, ser uma ingénua tentativa propagandística para fazer crer às pessoas de que estamos a entrar num tempo de fazer tábua rasa, as fraudes do Banco Espírito Santo não têm nada de novo.

E é aí que houve algo de ainda mais extraordinário naquele momento extraordinário.  Carlos Costa confessou a inoperância das entidades reguladores perante o capitalismo financeiro conforme ele funciona hoje.   As fraudes do Banco Espírito Santo não têm nada de novo:  basicamente, dependem da utilização de jurisdições ocultas, empresas-veículo em paraísos fiscais, e um carrossel de operações entre todas elas. 

O sistema continua tão opaco quanto sempre.  Nada mudou.  E o governador do banco central confirmou que só quando o banco estoura é que se consegue levantar a ponta do véu.   A podridão do império BES ainda está por descobrir.

Posto desta forma, Carlos Costa não disse mais do que dizem todos os grandes críticos do capitalismo actual.  Só o disse de forma menos clara.  Os velhos vícios continuam intactos por debaixo dos “novos bancos”.

Há maneira de acabar finalmente com isto.  Separar bancos de investimento de bancos tradicionais.  Obrigar os bancos europeus a revelarem tudo o que fazem as suas subsidiárias.  Legislar, ao nível da União Europeia, no mesmo sentido dos EUA com a sua lei FATCA, que obriga todas entidades fiscais, coletivas ou individuais, a declararem os activos que detêm fora da sua jurisdição de origem.  E, finalmente, criar uma unidade especial de investigação ao crime financeiro e económico, sediada no Banco Central Europeu ou na Europol.


Tudo isto pode ser conseguido, mas não pelos governos que temos hoje.

(RUI TAVARES - Público - 04/08/2014)



domingo, 3 de agosto de 2014

O PIOR DOS PESADELOS...





Já ninguém está preocupado com a família Espírito Santo e poucos são os que se preocupam com o Governo, os partidos que o apoiam e o regulador.   A todos podemos substituir, mas a pancada que volta a sobrar para os portugueses vai doer muito mais do que é possível imaginar.  
Esses portugueses são pequenos accionistas, trabalhadores de empresas que acabarão por falir, que dependem de um sistema bancário que passa de bestial a besta e de uma economia que dava sinais de recuperação e que ameaça entrar novamente em depressão.   

Por muito que a elite pense que sim, a necessidade de o Estado intervir para salvar um banco que julgávamos salvo não é o problema maior.   
Este país não tem solução enquanto todos os poderes pactuarem com um sistema que favorece o enriquecimento ilícito, que julga na praça pública por ser incapaz de fazer justiça nos tribunais, que despreza a competência e aplaude o amiguísmo, que se mostra totalmente incapaz de promover a igualdade de oportunidades.  Um sistema que recicla os donos disto tudo, mas apenas para substituir uns pelos outros.

O capitalismo sem ética, a que aludiu o Papa Francisco como uma das principais chagas do mundo moderno, é que nos tem arrastado de desgraça em desgraça. Agora, que começávamos a pôr a cabeça fora de água, aproximando as nossas despesas das nossas receitas, podemos ter de começar todo o calvário de novo.   O pior é que muita gente, muita gente mesmo, não tem como aguentar nova tragédia que obrigue o Governo a cobrar mais impostos, a banca a reter capital e as empresas a despedir.

Tudo isto é mau, muito mau mesmo, mas ainda não é o pior dos pesadelos.   Imaginem que Ricardo Salgado, tocado pelas santas palavras do Bispo de Roma, resolve redimir-se do seu capital pecado e confessar o carácter diabólico que presidiu às suas relações nas últimas décadas.   É que não há banco do regime sem regime, nem regime sem titulares do poder, nem corruptores sem corruptos.  Nós sabemos como, entre as migalhas e os grandes banquetes, muita gente comeu à mesa do último banqueiro.

Se ele se confessa, o colapso que se abateu sobre a família Espírito Santo será de repercussões bem maiores, envolvendo outros banqueiros, empresários que foram apenas testas-de-ferro, milionários de toda a espécie, dezenas ou centenas de políticos, alguns jornalistas e magistrados...   Não faço ideia se ficaria pedra sobre pedra e até imagino que esta catarse deixaria mais feridas do que curas, mas, pelo menos, viveríamos na verdade.

Deve ser porque vejo muita gente com medo que Ricardo Salgado conte tudo o que sabe que este pesadelo parece real.   Ele, afinal, ainda tem muito poder.   A destruição criativa continua nas mãos deste homem.

(Paulo Baldaia, DN - 3/AGO/2014)


quinta-feira, 31 de julho de 2014

A verdade negra por detrás das lâmpadas de baixo consumo



Existe uma mentira altamente perigosa por detrás das supostas vantagens das lâmpadas (fluorescentes) de baixo consumo – elas contêm mercúrio e são tóxicas.  Com a chegada destas lâmpadas ao mercado conseguiu-se  reduzir o consumo de energia, mas não a contaminação.  Quando estas lâmpadas se quebram e os seus vapores são inalados, o teor de mercúrio nelas contido constitui um perigo para a saúde.

A Universidade de Calgary foi a primeira instituição a demonstrar como o mercúrio ataca directamente o cérebro e destrói os neurónios.  Cada átomo de mercúrio provoca danos irreversíveis.  Uma pequena quantidade é suficiente para causar uma doença grave.  O vapor de mercúrio é especialmente tóxico porque é quase completamente absorvido por inalação, mas não voltará a ser expulso rapidamente.  Invade outros órgãos, tais como os rins, várias glândulas e especialmente o cérebro, onde pode permanecer durante décadas.

Quanto mercúrio está numa lâmpada economizadora de energia?   O método de medição estipulado pelas autoridades comerciais da União Europeia envolve a destruição da ampola, que deverá ser cortada em pedaços, decomposta e analisada em ácido.  Mas o método tem uma falta grave:  apenas os componentes líquidos de mercúrio são medidos. Os gases escapam-se.

A utilização das lâmpadas de baixo consumo foram impostas por lei sem considerar os riscos de saúde e ambientais, quando quebradas ou descartadas.  Nem nada foi estabelecido sobre a responsabilidade das empresas fabricantes, ou sequer foram criados espaços obrigatórios para receber lâmpadas fora de uso.  
Quando uma lâmpada de baixo consumo se quebra, uma parte do revestimento fluorescente dentro da ampola solta-se sob a forma de pó.  Esta poeira está contaminada com mercúrio, consequentemente, qualquer recipiente utilizado para depositar a lâmpada quebrada também ficará contaminado com mercúrio. Na maioria dos países, estas são atiradas no lixo doméstico e  o mercúrio derramado irá parar a lixeiras a céu aberto.

Como medida mínima de precaução, ao quebrar-se uma destas lâmpadas torna-se absolutamente necessário evacuar a respectiva sala durante, pelo menos, um quarto de hora, ventilando-a convenientemente.

As duas maiores empresas fabricantes destas lâmpadas são a Phillips e a Osram.  Nenhuma delas se preocupa com este assunto, face à sua possível perda de vendas.  E isto ainda se agrava muitíssimo mais quando pensamos na imensa fabricação proveniente da China, para mais sem qualquer controle de fabrico e de dosagens de mercúrio.





domingo, 20 de julho de 2014

Quando eu for grande... também quero brincar assim! (Ken Block)



É impressionante o que um montão de cavalos dentro de um carro pode fazer, quando conduzidos por um par de mãos (e de pés...) com uma tremenda capacidade artística nas quatro rodas.  É de ver.  E de ficar extasiado!...




segunda-feira, 14 de julho de 2014

Mulheres... boas que se fartam a tocar no instrumento!



Salut Salon – é um sensacional quarteto de cordas alemão, constituído por quatro mocinhas giras e que sabem tudo sobre “como bem tocar num instrumento”.    Denominam-se a si próprias como "um conjunto acrobático de Música de Câmara", e apresentam-se em palco com uma irreverência e um sentido de humor muito peculiares, o que as torna já virais através deste video onde interpretam a conhecida composição de Antonio Vivaldi, “The summer”.





sábado, 28 de junho de 2014

"(SEXO), MENTIRAS E SACANICES" - FMI - As Duas Faces do Grande Capital






FMI reconhece “custos desnecessários” dos
ajustamentos sem reestruturação da dívida


Um relatório apresentado aos dirigentes do FMI concluiu que teria sido preferível renegociar a dívida dos países sem acesso aos mercados, assim reduzindo os custos para credores e devedores.   E reconhece que a reestruturação feita na Grécia para salvar os credores privados só veio agravar o problema.

Este relatório, supervisionado por Olivier Blanchard e outros altos quadros do Fundo, pretende avaliar o quadro de ação vigente desde 2002 no Fundo Monetário Internacional para os empréstimos excepcionais no contexto de vulnerabilidade das dívidas soberanas.    conclusões, os técnicos do FMI alertam que as regras adoptadas em 2002 deram origem a “custos desnecessários tanto para os devedores como para os credores, dado que requer uma reestruturação definitiva da dívida mesmo em circunstâncias em que, a posteriori, isso se revelasse desnecessário”.

Em alternativa, os técnicos sugerem agora que nos casos em que um país tenha perdido o acesso aos mercados e ao mesmo tempo o Fundo continue a considerar a sua dívida soberana sustentável, embora sem uma alta probabilidade, “o Fundo deve ser capaz de oferecer um acesso excepcional na base de uma operação de dívida que envolva uma extensão de maturidades”, embora nesse caso não haja redução de juros ou montantes. 

Mas o relatório vai mais longe e defende que nos casos em que essa extensão de maturidades não afaste o cenário de insustentabilidade da dívida - um exemplo que se aplica hoje a Portugal ou à Grécia - deve ser efectuada uma redução da dívida, evitando a todo o custo repetidas reestruturações das maturidades.

Como sempre, o FMI olha sobretudo para o interesse dos credores, que devem dar o acordo a qualquer cenário de reestruturação “para evitarem o pior cenário, nomeadamente um default ou uma operação que envolva a redução da dívida”.   Olhando para a sua acção desde a crise grega, os técnicos do FMI reconhecem também que de nada serve uma reestruturação da dívida para salvar os credores privados, se ela não eliminar as dúvidas sobre a sustentabilidade da dívida, que são a origem do risco de contágio. 

O relatório aponta os casos da Argentina e da Grécia, em que os credores privados foram reembolsados com a aplicação dos programas apoiados pelo FMI sem que isso parasse o contágio, como exemplos da "falta de credibilidade" dessa solução. 

O documento critica a opção tomada na reestruturação da dívida grega, em que o FMI financiou o pagamento das obrigações dos credores privados e reconhece agora que “esta abordagem simplesmente agrava os problemas para o país-membro e também põe em risco os recursos próprio dos do Fundo”. 

Mas esta falsa solução também contribui para “impor um peso maior no processo de ajustamento fiscal, que pode comprometer as perspectivas de crescimento a médio prazo e enfraquecer o apoio político ao ajustamento, pondo assim em causa a sustentabilidade”, conclui o relatório.

(Fonte: "Esquerda.net")