segunda-feira, 6 de maio de 2013

PODE UM HOMEM SOZINHO DAR CABO DE UM PAÍS ?

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Pode, se o deixarem à solta:   é o que Vitor Gaspar está há quase dois anos a tentar fazer a Portugal.    

Ele dará cabo do país e não deixará pedra sobre pedra se não for urgentemente dispensado e mandado regressar à nave dos loucos de onde se evadiu.    Já suportámos tudo a Vitor Gaspar:    nove trimestres consecutivos de previsões sucessivamente falhadas;   erros de avaliação de uma incompetência chocante;   subidas de impostos que conseguiram o milagre de fazer cair a receita fiscal;    meio milhão de novos desempregados em menos de dois anos e milhares de empresas chutadas para a falência;   cortes cegos em tudo o que estava em marcha para mudar o nosso paradigma de país subdesenvolvido – como a aposta na investigação, na ciência, nas novas tecnologias, nas energias alternativas;   um despudor e uma arrogância a corrigir os erros cometidos com novos erros idênticos, que, mais do que teimosia e obstinação suicidárias, revelam sim o desespero de um ditador intelectual perdido no labirinto da sua ignorância.    

Gaspar não sabe como sair do desastre em que nos meteu e, como um timoneiro de uma nave em rota de perdição, ele não vê nem passageiros nem carga, ou empregos e vidas a salvar:    prefere que o navio se afunde com todos a bordo e ele ao leme.    Sem sobreviventes nem testemunhas.

Vendo-o na sua última aparição pública, a dar conta das linhas orientadoras do DEO, percebi que ele já não tem rumo nem bússola.    Nem sequer tem linhas orientadoras da estratégia orçamental ou do que quer que seja.    Apenas tem um número, que, aliás, vai sucessivamente engrossando à medida que o desastre se vai tornando cada dia mais nítido:   1,3 mil milhões, 4 mil milhões, 6,5 mil milhões.   Cada nova previsão falhada, cada novo erro de avaliação por ele cometido, tem como consequência não um pedido de desculpas ou a promessa de se render e arrepiar caminho, mas antes a ameaça de mais e mais sacrifícios sobre uma economia e um povo exauridos.

Afinal, anuncia ele agora, a recessão não vai inverter-se no final deste ano, como previra, mas só lá para 2015 ou 16;    afinal, o “desemprego ainda vai subir antes de começar a descer” daqui a uns dois anos, talvez;    afinal, a “sustentabilidade das contas públicas”, que nos diziam iminentemente assegurada, vai exigir “sacrifícios para uma geração.     Mas o que mais me choca ainda é o tom nonchalant com que  debita as novas ameaças, como se, milhão a mais ou milhão a menos, dois anos a mais ou dois anos a menos, não fizesse grande diferença nas vidas concretas de gente concreta, destruídas a mando da sua incompetência.

Sim, incompetência:   porque o mais extraordinário de tudo é pensar que Vitor Gaspar impôs ao país uma política de austeridade suicida que o conduziu a uma das maiores recessões da sua história e sem fim à vista e, em troca, não conseguiu as duas coisas que ele e os demais profetas da sua laia de fanáticos juravam ir alcançar sobre as ruínas do país:    nem fez a reforma do estado nem controlou o crescimento da dívida pública – pelo contrário, perdeu-lhe o controlo.    Mas para onde foram os 24.000 milhões de euros que as políticas de austeridade de Vitor Gaspar roubou à economia, às empresas e aos trabalhadores e pensionistas, neste dois anos?   Sumiram-se para onde, serviram para quê?

Incompetência, porque tudo aquilo que Vitor Gaspar sabe fazer e faz, qualquer merceeiro, sem ofensa, sabe fazer:    contas de somar e subtrair.   Agora faltam-lhe 6,5 mil milhões?   É fácil de fazer, basta agarrar numa caneta e num papel.
Ora vejamos:   conta de subtrair – tiram-se 2 mil milhões aos pensionistas e 3 mil milhões aos salários dos funcionário públicos.   Temos 5 mil milhões, falta 1,5.   Conta de somar – aumenta-se o IRS (o único imposto que ainda garante retorno acrescido na receita fiscal).   Aí estão os 6,5 mil milhões – a “reforma do Estado”

Mas alguém lembra então a Gaspar que isto vai significar menos consumo privado, e que menos consumo significa mais falências, mais desemprego, mais subsídios de desemprego a pagar.    Contrariado, Gaspar volta a agarrar na caneta e desenha nova “medida de estratégia orçamental”,  ou seja, nova conta de subtrair - tira-se meio milhão às verbas do subsidio do desemprego.     E quando alguém lembra ao ministro que o subsídio do desemprego já foi reduzido na sua duração a um paliativo mínimo e as suas regras de acesso, de tão restritas que são, apenas abrangem 45% dos desempregados, Gaspar responde:    “Então por isso mesmo, e, aliás, em obediência ao princípio da igualdade, diminui-se a prestação aos que a têm”.

É assim que Vitor Gaspar governa o pais, perante a aquiescência do primeiro-ministro e a cumplicidade do Presidente da República.    

Eles sustentam que tudo fará sentido e valerá a pena no dia em que Portugal regressar aos mercados.     Não é um sonho, é um delírio:    quanto mais o PIB cai mais sobe a divida pública, calculada em percentagem do PIB.    E, quando olharem para nós, sem a “protecção” da troika, o que irão os mercados ver?    Um país em recessão permanente, com a divida sempre a subir e  governado por Passos Coelho e Vitor Gaspar.    Em que filme de aventuras é que eles aprenderam que um país assim é salvo por filantropos?     Não, Gaspar não nos vai levar de volta aos mercados, a não ser em condições de estertor final:     ele vai é levar-nos de volta a um novo resgate.     E esse vai fazer-nos retroceder cem anos.

Há alternativa?   Há, tem de haver.    É isso que o novo primeiro-ministro italiano, Enrico Lette, anda a dizer pela Europa fora:     tem de ser possível fazer a reforma financeira dos Estados e fazer aceitar os sacrifícios necessários para tal,  desde que, em contrapartida, tudo o que os governos tenham para oferecer, não seja uma geração de sacrifícios, como anuncia displicentemente Vitor Gaspar.    Porque, como disse Lette, aquilo que não faz sentido e é intolerável é continuar com políticas que geram taxas de desemprego de 15, 20 e 25%  e de desemprego juvenil entre 30 a 50%.     Pode ser que na nave dos loucos onde se produzem génios da dimensão de um Vitor Gaspar, se tenha congeminado a tese final do capitalismo triunfante:   uma economia sem trabalho e sem trabalhadores.     Às vezes dá-me mesmo a ideia que sim, mas é preciso que a loucura deles seja da estirpe mais perigosa de todas para imaginarem que a Europa e qualquer uma das suas nações sobreviverá assim e pacificamente.

Mesmo com um Governo italiano arrastando ainda e uma vez mais o fantoche de Berlusconi, mesmo com uma França chefiada pelo triste Hollande ou uma Espanha chefiada pelo incapaz Rajoy,  mesmo com a Grécia de Samaras, a Europa do sul está finalmente a mover-se, por instinto de sobrevivência.    Sem perder tempo, Lette foi direito à origem do mal:     a Berlim e a Bruxelas.     Ele não fará abalar Angela Merkel nas suas convicções e interesses próprios e não conseguirá também fazer com que Durão Barroso deixe de oscilar conforme o vento, até ficar tonto.    Mas, se conseguir unir o sul e juntar-lhe outros povos acorrentados pelos credores e condenados à miséria, enquanto o norte prospera sobre a ruína alheia, de duas uma:     ou a Europa se reconstrói  como uma livre associação de Estados livres, ou implode às mãos da Alemanha.     Qualquer das soluções é melhor do que esta morte lenta a que nos condenaram.

É claro que nada disto dá que pensar a Vitor Gaspar que vem de outro planeta e para lá caminha, nem a Passos Coelho, que estremece de horror só de pensar que alguém possa desafiar a autoridade da sua padroeira alemã.    Nisso também tivemos azar:   calhou-nos o pior pais para viver esta crise.    Mas este governo vai rebentar, tem de rebentar.    Porque a resposta à pergunta feita acima é não.    Não, um homem sozinho não pode dar cabo de um país com quase nove séculos de história.

(Miguel Sousa Tavares, In Expresso – 4/Maio/2013) (sublinhados deste blogue)


domingo, 5 de maio de 2013

Será possível salvar a Europa do desastre que aguarda o euro?

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Da Grécia à Itália, passando pela Irlanda, por Portugal e pela Espanha, a zona do euro a partir de agora está em brasa.    

Os Estados não param de contrair empréstimos a juros cada vez mais altos e os contratos de seguros sobre as dívidas, quer sejam públicas ou privadas, vêem o montante dos seus prémios a evaporar-se.    O euro está a morrer.    Tudo isto estava previsto há vários meses, ou mesmo há vários anos.   Mas nem Cassandra se alegraria por ver realizarem-se as suas previsões.    Compreendemos que a morte do euro, dada a casmurrice imbecil dos nossos dirigentes e dada a sua incapacidade de prever uma saída organizada  –  o que, aliás, ainda seria possível actualmente  -  nos condena muito provavelmente a um salto no desconhecido. 

A História medirá a responsabilidade dos nossos governos que, por ideologia, por conformismo e por vezes por cobardia, deixaram a situação degradar-se até ao irreparável.    Registará também a enorme culpa dos que, nas capitais nacionais como Bruxelas ou Frankfurt, procuraram impor à socapa uma Europa federal através da moeda única a povos que não a queriam.    Agora não é apenas o euro, essa construção manca e deformada, que agoniza.    É também um certo conceito da Europa. 

A vitória provisória dos "cabritinhos", daqueles que, para retomar a célebre frase do general de Gaulle, se afastam gritando - "a Europa! a Europa!" - saltando por cima das cadeiras, é paga hoje a um preço muito alto.   Se não quisermos regressar a uma Europa do conflito "de todos contra todos", teremos que reaprender os princípios da coordenação entre nações soberanas, que são os berços da democracia, sobre as ruínas duma cooperação que quiseram construir sobre o desprezo da opinião dos eleitores.    A crise actual salda ao mesmo tempo os erros duma financiarização até às últimas consequências, desejada simultaneamente pela direita e pela esquerda parlamentares, e o erro político que foi o tratado de Lisboa e a negação da democracia que se seguiu ao referendo sobre o projecto de tratado constitucional em 2005. 

Com efeito, mal os nossos governantes têm a sensação de ter arranjado um remédio, mesmo que temporário, para um dos países, já a crise se precipita sobre outro.    Os bancos europeus estão pois no centro do ciclone e sofreram pesadas perdas quanto à sua capitalização desde o início do mês de Agosto de 2011.    A incerteza quanto à sua solvabilidade não pára de subir.    Está à medida do erro, e é um eufemismo, que foi praticado no início da Primavera de 2011, dizer que os "testes de resistência"  (ou stress tests ) realizados na época omitiram nas suas hipóteses integrar um possível incumprimento de um país da zona euro.    Estamos a pagar caro esse erro!    É provável que ele torne inevitável uma nacionalização temporária, parcial ou total, dos nossos sistemas bancários. 

Depois da Grécia, a partir de agora condenada ao incumprimento e a uma desvalorização, e esvaída em sangue por uma repetição insensata de planos de austeridade que foi denunciada pelo economista do [banco] Natixis, são a Itália e a Espanha que dão sinais de fraqueza.    Na Itália, apesar da multiplicação de planos de austeridade, a dívida não pára de aumentar enquanto a maré do desemprego sobe inexoravelmente em Espanha.     Quanto a Portugal, mergulha numa crise sem saída e a própria França está a ser posta em causa. 

Até os cépticos mais empedernidos devem reconhecê-lo no âmago do seu coração.    Para além da crise de cada país, que se explica por razões específicas de cada vez, para além da crise de governação da zona do euro, certamente previsível mas exasperante entre a Alemanha e a França, é mesmo a divisa única, o próprio euro, que está em crise. 

Na verdade esta crise era previsível há muitos anos, porque os defeitos estruturais da zona do euro eram notórios e bem conhecidos dos economistas, incluindo os partidários do euro.    Os desequilíbrios induzidos pela moeda única abriram caminho no seio das economias dos países da zona do euro.    Se a crise de 2007-2008 deu um impulso decisivo à crise do euro, convém dizer que esta só estava à espera de uma grande desordem da economia mundial para se revelar. 

Esta crise tornou-se uma realidade no Verão de 2009 quando a acumulação das dívidas atingiu um limiar crítico na Grécia, na Irlanda e em Portugal.    No Verão de 2011, sofreu uma reviravolta dramática que prova que o processo está a piorar.    De resto, podemos constatar o aumento da fadiga do euro, bem perceptível, quer seja nas opiniões públicas, onde a partir de agora temos uma maioria de pessoas que se pronunciam contra uma ajuda suplementar à Grécia, quer no seio dos governos onde a partir de agora se revela o desânimo. 

Esta crise também se combina com as inquietações suscitadas pela situação nos Estados Unidos.    A perda para este país da sua nota AAA prova que ele não saiu da crise dos chamados subprimes.    Além disso, as suas perspectivas de crescimento são muito fracas.    O primeiro país a sofrer a crise de 2007 não reencontrou uma dinâmica sã de desenvolvimento e afunda-se lentamente numa crise dupla de endividamento do Estado federal e das famílias.    As reacções dos países emergentes, liderados pela Rússia e pela China, face à política monetária seguida por Washington, são cada vez mais vigorosas. 

A concomitância destas crises contribui no entanto para obscurecer o seu sentido.    Mascara em particular o que a crise na zona do euro tem de específico e os efeitos da moeda única que a agravam.    Mas faz-nos lembrar que, num mundo de finanças globalizadas, há laços estreitos que unem os diferentes problemas.    Se o euro vier a desaparecer, será o dólar que se encontrará na primeira linha face à especulação internacional que se desencadeará.    Apostamos que não tardará nada a soçobrar. 

São numerosos os que pensam que a crise do euro agrada aos dirigentes americanos.    Enganam-se redondamente.    Um euro enfraquecido politicamente mas presente, concentrando ainda durante vários anos a atenção dos especuladores internacionais e travando o desenvolvimento das economias europeias, é uma situação muito melhor para os dirigentes de Washington.    É por isso que estes multiplicam as iniciativas para forçar a mão dos países europeus e para que seja posto em acção um novo plano de salvamento da Grécia. 

Assim, por razões tão diversas quantos os países envolvidos, os dirigentes dos dois lados do Atlântico afirmam a sua vontade de defender o euro.    Mas os factos são casmurros!    E quando os menosprezam, vingam-se. 

Os argumentos distorcidos de uns e de outros, os advogados pro domo de políticos acossados, as subtilezas num calão pseudo-técnico em que se deliciam os burocratas de Bruxelas não alterarão nada.    A moeda única europeia, que esteve na origem de tantas esperanças, não cumpriu nenhuma das suas promessas.    Hoje morre por causa do fracasso do projecto político que lhe deu vida, o "federalismo furtivo", por causa da divergência das dinâmicas económicas dos países membros, divergência essa exacerbada pela política da Alemanha. 

O que é infinitamente mais grave que a morte do euro na sua forma actual é que o próprio princípio de coordenação monetária corre o risco de morrer com ele.    E hoje coloca-se a questão:    será possível salvar este princípio de coordenação do desastre que aguarda o euro, com o que isso implica de flexibilidade para cada país e de cooperação entre países?

(Por Jacques Sapir) (Ler o artigo completo em Resistir.info)


Mas este rapazola não se enxerga?... Tem pose e fala grosso, mas continua um "Jotinha"!

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E continua o jogo do "rapa, tira, deixa e repõe"...    é um perito, este rapazola, ainda vai conseguir entrar para o Guiness como o político que mais rapidamente diz uma coisa e o seu contrário;     e ainda lhe sobra um segundo título  -  o que mais atropelos faz às normas Constitucionais!    E tudo isto sem se rir e com a mesma cara de pau, tão convencido está do seu grande desígnio de "salvador da Pátria",  versão portuguesa de Jesus Cristo...


Governo admite deixar cair a taxa sobre as pensões

A contribuição de sustentabilidade sobre as pensões de reforma, anunciada esta sexta-feira pelo primeiro-ministro, pode não chegar a ver a luz do dia.

A solução encontrada pelo Governo para tapar o buraco criado pelo chumbo do Tribunal Constitucional pode permitir que o Executivo deixe cair o novo imposto sobre as reformas.     A TSF refere uma fonte do Executivo que admite que, no exercício do próximo ano, poderá existir uma almofada que permita dar esse ganho político ao CDS.

Os cortes estruturais previstos para este ano podem, segundo a mesma fonte, ser superiores em 200 milhões de euros ao que é necessário para cumprir as metas previstas, estando em estudo outras medidas de menor impacto que permitam abdicar da taxa sobre as pensões de reforma, que é o principal ponto de desacordo entre Vítor Gaspar e Paulo Portas.    (Económico, 05/05/13)

Actualização:

Imposto sobre os pensionistas “é a fronteira que não posso deixar passar”


Paulo Portas assumiu que está contra a taxa sobre pensões, anunciada pelo primeiro-ministro na sexta-feira.    "O senhor primeiro-ministro percebe que esta é a fronteira que não posso deixar passar", afirmou o presidente do CDS-PP, referindo-se Paulo Portas ao novo imposto sobre os pensionistas, hoje numa comunicação ao país em reacção aos novos cortes anunciados por Pedro Passos Coelho na sexta-feira.
Paulo Portas comprometeu-se a procurar medidas suplementares que substituam a nova contribuição sobre as pensões.    "Farei tudo para que se poupe quem deve ser poupado", defendeu.    "Queremos uma sociedade que não descarte os mais velhos", acrescentou o líder do CDS.


Embora tenha assumido uma frontal divergência, com o PSD, principal partido do Governo, em relação a esta taxa sobre os pensionistas, Paulo Portas manifestou apoio às restantes medidas fazendo questão de frisar que foi o CDS que conseguiu impedir que a idade da reforma subisse para os 67 anos.    "A questão da idade da reforma ocupou bastante do meu tempo, fiquei incomodado com a notícia. Não havia consenso no Governo quando a esta matéria e a medida não avançou".

Na sua declaração, que demorou cerca de meia hora, Paulo Portas dirigiu palavras muito duras à troika.    O líder democrata cristão classificou de "situação vexatória" o facto de o país estar intervencionado e defendeu que não vê "nenhuma vantagem em voltar a estender a mão como pedintes nem de estender a permanecer desses senhores entre nós".    "Não observo nas equipas técnicas da troika suficiente flexibilidade que dê substância ao discurso" de muitos dos seus representantes que invocam a necessidade de apostar no crescimento económico e no alívio da austeridade.   (por Mariana Adam e Inês Bastos - Económico - 5/5/2013) 



sábado, 4 de maio de 2013

A crise foi provocada pela corrupção e não pelos excessos dos portugueses

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O vice-presidente da Associação de Integridade e Transparência, Paulo Morais, garantiu esta quinta-feira que a crise económica em Portugal não se deve ao facto de os portugueses terem vivido acima das suas possibilidades, mas aos fenómenos de corrupção.


"Há duas mentiras que têm sido repetidas na sociedade portuguesa:    que os portugueses andaram a gastar acima das suas possibilidades e que não há alternativa à austeridade para expiarem os pecados  (que não cometeram)", disse.

Segundo Paulo Morais, que falava sobre a "Origem da Crise" numa conferência sobre o modelo do Estado Social, promovida pela Escola Superior de Ciências Empresariais do Instituto Politécnico de Setúbal, "grande parte da divida pública e privada é fruto da corrupção e não dos alegados excessos dos portugueses".

Paulo Morais destacou o peso do caso BPN e das Parcerias Público-Privadas (PPP), entre outros, na dívida pública e lembrou que 68% da dívida privada é resultante da especulação imobiliária, salientando que só cerca de 15% da divida privada se pode atribuir aos alegados excessos dos portugueses.    Os resultantes 15% da divida privada, disse Paulo Morais, correspondem a todo o dinheiro disponível na banca para apoiar a economia portuguesa, que considerou insuficiente.

Para o antigo vereador do Urbanismo da Câmara do Porto, a verdadeira explicação para a crise em Portugal está nos fenómenos de corrupção na administração central e local, que têm permitido a "transferência de recursos públicos para grandes grupos económicos".    "Seis a sete por cento dos recursos do Orçamento de Estado vão para grandes grupos económicos", disse Paulo Morais, referindo o grupo Espírito Santo, o grupo Mello e o grupo Mota Engil, como alguns dos principais beneficiários.

"Em 2011, as PPP custaram 1.700 milhões de euros, ou seja, mais do dobro dos 799 milhões de euros que estavam previstos inicialmente", disse Paulo Morais, considerando incompreensível que tivesse havido um desvio com um custo superior ao preço que estava inicialmente previsto.    "O que o Estado pagou a mais às PPP só é possível porque a sede da política - Assembleia da República - está transformada num centro de negócios", disse.

Como exemplo da gestão danosa dos dinheiros públicos, Paulo Morais referiu uma fórmula de cálculo inserida no contrato de uma PPP, numa auto-estrada em Viana do Castelo, em que o concessionário paga multas, ou recebe prémios do Estado, em função da taxa de sinistralidade.    "Se a sinistralidade aumentar 10%, o concessionário tem de pagar uma multa de 600 mil euros, mas, se houver uma redução de 10% na sinistralidade, o Estado tem de pagar à empresa 30 milhões de euros", disse.

"Quem assinou o contrato, só por isso, devia estar preso", sentenciou.

Referindo-se à nacionalização do BPN, Paulo Morais lembrou que o anterior governo socialista nacionalizou apenas os prejuízos, que estão a ser pagos pelo povo português, e permitiu que os acionistas da SLN - Sociedade Lusa de Negócios (agora com o nome Galilei), detentora do banco, ficasse com os activos e com todas as empresas lucrativas.
Paulo Morais garantiu, no entanto, que "se houver vontade política e se a justiça actuar como deve, o Estado ainda pode recuperar três ou quatro mil milhões de euros, através dos activos do grupo Galilei e das contas bancárias dos principais accionistas".

A aquisição de dois submarinos à Alemanha é, segundo Paulo Morais, mais uma caso de "corrupção comprovada", não pelos tribunais portugueses, mas pelos tribunais da Alemanha.

"Na Alemanha há pessoas [acusadas de corrupção] a dormirem todos os dias na cadeia", disse.

(In JN, 2/Maio/2013)


segunda-feira, 22 de abril de 2013

Reinhart & Rogoff - A viciação dos dados que levou à falsa e criminosa teoria da austeridade!

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A Depressão do Excel

Pode um erro numa folha de cálculo ter destruído quase por completo a economia do Ocidente?

Nesta era da informação, os erros matemáticos podem levar ao desastre.    A sonda "Mars Orbiter" da NASA desintegrou-se no espaço porque os engenheiros se esqueceram de fazer a conversão em unidades métricas;    o plano da Baleia de Londres do JPMorgan Chase deu errado em parte porque quem fez esses modelos dividiu por uma soma em vez de dividir por uma média.    De modo que, foi um erro de codificação no Excel que destruiu as economias do mundo ocidental?  

Esta é a história até agora:    no início de 2010, dois economistas de Harvard, Carmen Reinhart e Kenneth Rogoff, divulgaram um artigo, Growth in a time of debt  (Crescimento em época de endividamento), que pretendia identificar um limiar crítico, um ponto de viragem para a dívida pública.    Assim que a dívida for superior a 90% do produto interno bruto, segundo eles, o crescimento económico cairá a pique.

Reinhart e Rogoff tinham credibilidade graças a um livro anterior admirado em todo o mundo sobre a história das crises financeiras, e o momento escolhido foi o perfeito.    O artigo foi publicado logo após a Grécia ter entrado em crise e apelava directamente ao desejo de muitos políticos de passar do estímulo à austeridade.    Em consequência, o artigo tornou-se imediatamente  famoso.   Seguramente era, e é, a análise económica mais influente nos últimos anos.

O facto é que Reinhart e Rogoff  alcançaram rapidamente um status quase sagrado entre os autoproclamados guardiões da responsabilidade fiscal;   a afirmação sobre o ponto de viragem foi considerada não como uma hipótese controversa, mas como um facto inquestionável.    Por exemplo, um editorial do The Washington Post de princípios deste ano advertia contra una possível descida da margem face ao déficit, porque estamos “perigosamente próximos da marca dos 90% que os economistas consideram uma ameaça para o crescimento económico sustentável”.    Corrijamos a expressão:   “os economistas não, “alguns economistas”, e nem sequer já “alguns economistas", a realidade é que são já muitos os economistas, igualmente com boas credenciais,  os que contradizem energicamente.


A elevada dívida do Japão é uma consequência da crise, não a sua causa

A verdade é que o texto de Reinhart e Rogoff enfrentou críticas consideráveis desde o início e a controvérsia aumentou ao longo do tempo.    Acabado de ser publicado o artigo, muitos economistas observaram que uma correlação negativa entre a dívida e o comportamento económico não significa necessariamente que a dívida elevada  é a causa do crescimento lento.    Poderia muito bem ser o oposto, e que o baixo desempenho económico levaria à dívida elevada.    Na verdade, este é obviamente o caso do Japão, que se endividou imenso depois que o seu crescimento se afundou no início dos anos noventa.

Com o tempo, surgiu um outro problema:    outros investigadores, utilizando dados de dívida e de crescimento aparentemente comparáveis, não foram capazes de replicar os resultados de Reinhart e Rogoff.    O habitual era eles encontrarem uma certa correlação entre a dívida elevada e o crescimento lento  (mas nada que se assemelhasse a um ponto de viragem nos 90%, ou mesmo em qualquer nível concreto de dívida).

Finalmente, Reinhart e Rogoff permitiram que uns investigadores da Universidade de Massachusetts analizassem a folha de cálculo original,  e o mistério dos resultados irreproduzíveis foi esclarecido.    Em primeiro lugar, haviam sido omitidos alguns dados;   em segundo lugar, empregaram procedimentos estatísticos pouco habituais e muito questionáveis;   e, finalmente, sim, cometeram um erro de codificação no Excel.    Se corrigirmos esses erros e requisitos anormais, obtemos o que outros investigadores descobriram:    uma certa correlação entre o elevado endividamento e crescimento lento, mas sem nada que indique qual deles causa o quê, mas sem qualquer vestígio desse limiar dos 90%.

Em resposta a isto, Reinhart e Rogoff admitiram o erro de codificação, mas defenderam as suas demais decisões, assegurando que nunca afirmaram que a dívida provoca necessariamente um crescimento mais lento.    Isso é um tanto hipócrita, porque deram a entender repetidamente essa idéia, ainda que evitassem formulá-la expressamente.    Mas, em qualquer caso, o que realmente importa não é o que eles quizeram dizer, mas a maneira como o seu trabalho tem sido interpretado:    os entusiastas da austeridade anunciaram, com grande alarde, que esse suposto ponto de inflexão de 90% era um facto provado e uma razão para cortar drasticamente na despesa pública, mesmo com um desemprego elevadíssimo.


Este fiasco deve ser colocado no contexto mais amplo da obsessão com a austeridade

Por isso, devemos situar o fiasco de Reinhart e Rogoff no contexto mais amplo da obsessão pela austeridade:    o evidente desejo intenso dos legisladores, políticos e especialistas de todo o mundo ocidental para dar a volta aos desempregados e, em contrapartida, usar a crise económica como desculpa para cortar drásticamente nos programas sociais.

O que releva da teoria de Reinhart e Rogoff é a medida em que nos foi vendida a austeridade sob falsos pretextos.    Durante três anos, a viragem para a austeridade foi-nos apresentada, não como uma opção mas como uma necessidade.    As investigações económicas, insistem os defensores da austeridade, têm mostrado que coisas terríveis acontecem quando a dívida supera os 90% do PIB.    Mas as investigações económicas não têm demonstrado tal coisa;    um par de economistas fizeram essa afirmação, enquanto que muitos outros discordam.    Os responsáveis políticos abandonaram os desempregados e tomaram o caminho da austeridade porque quiseram, não porque tivessem que fazê-lo.

Servirá de algo o facto de se ter feito cair Reinhart e Rogoff do seu pedestal?    Eu gostaria de pensar que sim.   Mas prevejo que os suspeitos do costume irão simplesmente encontrar alguma outra análise económica questionável para canonizar,  e a depressão não terminará nunca.

(Paul Krugman - professor de Economia e Nobel de 2008 - El País, em 21/Abr/2013) (Tradução deste blogue)



terça-feira, 16 de abril de 2013

Wolfgang Schäuble – A sombra demoníaca por detrás da crise europeia!

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Schäuble – A crise é necessária para a união política

Há muito tempo que me pergunto por que Merkel e Schäuble se defendem tão veementemente contra os Eurobonds e também contra o resgate em massa dos títulos de países falidos através do BCE, quando praticamente todos os países da Zona Euro, e principalmente a França, exigem isso.    Os mercados também clamam por isso e querem ver uma solução imediata.

Ao contrário disso, ambos rejeitam estas exigências como se o momento para tal acção imediata não exigisse tal medida e eles repetem sempre a necessidade de medidas de contenção de gastos dos países do sul da Europa.

Primeiro, pensei que o Bundesregierung  (governo federal alemão)  não queria pagar juros altos que estariam  associados à introdução dos Eurobonds, ou que um programa de resgate do BCE levaria a uma enorme inflação, o que eles também mencionaram como justificativa para a sua posição negativa.    Após recentes declarações, tornou-se-me claro o que os dois querem:   - Merkel e Schäuble não querem de forma alguma solucionar a crise europeia;   eles não vêem o caos como problema, mas sim como necessidade.   Imaginem uma coisa destas:
Declaração de Schäuble:    “Nós podemos alcançar uma união política apenas através de uma crise”.     Isto declarou  ele, de facto, ao New York Times.

Quer dizer em bom alemão, o Bundesregierung quer levar toda Zona Euro para a merda e produzir desta forma uma crise, até que todos os países-membros abram mão espontaneamente da sua soberania e gritem por uma união político-fiscal.    É justamente isso que querem alcançar Merkel e Schäuble, e justamente isso eles irão propor no encontro dos líderes europeus no próximo dia 9 de dezembro (passado).    Eles querem obrigar a uma mudança do Tratado Europeu para poder erguer um governo central financeiro para a Zona Euro.

Schäuble disse ainda ao New York Times:    "O que almejamos com a União Fiscal é um breve passo para a moeda.   A longo prazo necessitamos de uma União Política".

Ahhhh...  este é o seu objetivo:   - a dissolução de cada país europeu num Super-Estado governado a partir de Bruxelas.     
Merkel já disse também que a Alemanha estaria disposta a abrir mão da sua soberania para que Bruxelas possa ditar a política económica e financeira para a Zona Euro.
O que o Bundesregierung exige dos países falidos  (maciça contenção de despesas e a conhecida disciplina orçamental)  leva logicamente à agudização da crise.    Com isso não apenas é reduzido o salário disponível do cidadão e a economia é enfraquecida, mas a conjuntura de toda a União Europeia cai de joelhos.    A arrecadação de impostos diminui e aí, então, os países não podem pagar as suas dívidas.    Ou Merkel e Schäuble são completamente incompetentes caso não entendam estas consequências, ou eles têm a intenção deliberada de alcançar este objectivo.    Eu aposto na segunda opção.

Merkel e Schäuble comportam-se como se tivessem todo o tempo do mundo, enquanto os investidores, em pânico, recusam a compra de títulos e exigem uma intervenção imediata.    Até os chineses e japoneses saíram agora da Zona Euro porque tudo lhes parece muito incerto, como mostram os últimos dados.  
Os juros dos títulos públicos estão extremamente altos e os países PIIGS não podem mais refinanciar as suas dívidas correntes.    Merkel e Schäuble impedem, entretanto, a intervenção maciça do BCE como última salvação e querem intencionalmente o crash como o seu “objetivo principal”.

Qual é sua motivação?    Merkel e Schäuble são impulsionados por uma missão que fora implantada pelo seu mentor espiritual, Helmut Kohl.     Schäuble participou activamente como negociador do governo ocidental na reunificação de ambos os estados alemães e vê este sucesso como um ponto alto da sua carreira.    Agora ele pretende algo ainda maior:   - unir toda a Europa em uma União.    Ele vê-se como parte da grande História, como arquitecto da nova Europa;    esta é sua ambição, e ele quer ainda ultrapassar Kohl.    E Merkel também quer isso.

Eu já digo há muito tempo que Wolfgang Schäuble é um louco completo, o homem é realmente perigoso.    Ele introduziu o estado policial e controlador como ministro do interior.  
Ele sempre foi impulsionado por uma ambição doentia - com 30 anos quis passar de deputado para chanceler.    Destino e escândalos retiraram-lhe as chances.    A 12 de Outubro de 1990 ele foi alvejado, e desloca-se desde então em cadeira de rodas.    No ano 2000, um escândalo de suborno em torno das contas partidárias fez com que renunciasse do cargo de presidente do partido CDU, e Angela Merkel foi colocada à frente do seu nariz.     Neste contexto, foi ele mesmo que a indicou, dois anos antes, como secretária geral do partido.

Schäuble é um psicopata que leva neste momento a Europa ao caos, apenas para poder realizar a sua visão de uma Europa unida politicamente, na qual ele trabalha nos bastidores há mais de 30 anos.    Ele quer entrar para os livros de história com esta proeza.    Por isso ele é para mim um louco, pois só alguém assim pode querer conscientemente a destruição, e com isso poder construir a “Haus Europa”.    Ele quer utilizar para isso a aparente força da Alemanha e a fragilidade dos outros países.

Isso explica a sua recente e arrogante declaração sobre os britânicos - "eles iriam logo abdicar da libra e teriam que aderir ao Euro".     Ou ainda o seu esclarecimento no 12º Congresso Europeu dos Bancos - a União Fiscal virá nos próximos 24 meses, basta apenas alterar o protocolo 14 do Tratado de Lisboa - "a soberania do países europeus é apenas uma relíquia do passado", e então, com toda naturalidade, ele afirmou: “… nós na Alemanha nunca mais fomos completamente soberanos em momento algum desde o 8 de maio de 1945!”

Olá...   de uma “teoria da conspiração” aconteceu um fato conspiratório.    Onde está a comunicação social?     Eu, ingénuo, parto sempre da premissa que a imprensa tem a tarefa de informar a população, mas o seu trabalho é embrutecê-la e mantê-la alienada.    Os alemães nem devem saber do que Schäuble confirmou - eles vivem desde a guerra num país não soberano  (nunca foi ratificado um tratado de paz desde a II G.Guerra...).

Uma coisa estes loucos dizem quando correm atrás dos seus objectivos:   - eles falam de facto a verdade sobre o que aconteceu no passado e o que almejam para o futuro.    Talvez os políticos britânicos não estejam assim tão errados quando alertam para um Super-Estado dominado pela Alemanha, como apresentei no meu artigo  “Irlanda – Alemanha é nosso novo mestre!”  

É mais do que chegada a hora de os democratas alemães mostrarem o cartão vermelho para Merkel e Schäuble, pois, caso contrário, a Europa vai mergulhar no caos e novamente numa ditadura fascista.
(Alles Schall und Rauch, 21/11/2011)

(Publicado AQUI) (Sublinhados, imagens e adaptação para português de Portugal por este blogue)


segunda-feira, 15 de abril de 2013

Dívida da II G.Guerra da Alemanha à Grécia - sobe de tom o diálogo entre os dois países...

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Grécia  vs  Alemanha
O próximo duelo joga-se nos tribunais internacionais

(...a HISTÓRIA)


Depois da Grécia apurar que a Alemanha lhe deve mais de 162 mil milhões de euros em reparações de guerra, o tom do diálogo começa a subir entre os dois países que já ponderam recorrer aos tribunais internacionais para resolver a disputa.


Mais de 560 mil mortos, 70 mil judeus enviados para campos de concentração, 50% das infra-estruturas destruídas e 75% da indústria em ruínas foram o resultado de três anos de ocupação nazi na Grécia.    Agora, 69 anos depois da saída das tropas de Hitler do país e na mesma semana em que consegue desbloquear a próxima tranche do empréstimo da troika, a Grécia mostra-se disposta a ir até às últimas consequências para que lhe sejam reavidos mais de 162 mil milhões de euros em reparações de guerra que nunca foram pagas na totalidade pela Alemanha - com juros de mora.    Wolfgang Schäuble, ministro das Finanças alemão, já acusou os gregos de irresponsabilidade por trazerem esse assunto de volta à discussão pública, mas Dimitris Avramopoulos, ministro dos Negócios Estrangeiros grego, avisou que Atenas não vai esquecer o passado e que serão, em última instância, os tribunais internacionais a decidir.

Depois do jornal diário grego “To Vima” ter difundido que a Comissão nomeada pelo governo grego, em Novembro do ano passado, para avaliar o montante de reparações de guerra em dívida pela Alemanha, tinha apurado que o valor devido à Grécia era de cerca de 162 mil milhões de euros, as críticas germânicas não se fizeram esperar.    Schäuble desvalorizou o assunto considerando as conclusões do relatório do governo “irresponsáveis”.    “Em vez de iludir as pessoas na Grécia, seria melhor mostrar-lhes o caminho para as reformas que precisam fazer”, disse o ministro alemão.

A resposta da Grécia, onde o relatório ainda é secreto, conhecendo-se apenas o valor monetário apurado por um conjunto de analistas, não tardou.    O ministro dos Negócios Estrangeiros que está a estudar o relatório e a melhor maneira de o utilizar, disse que as reformas para melhorar a situação financeira do país estão a ser levadas a cabo, e que as reparações da II Guerra Mundial são um assunto à parte.    “Não há qualquer relação entre os dois assuntos. Uma coisa são as reformas financeiras que a Grécia está a fazer neste momento e outra são as reparações de guerra. Este é um assunto pelo qual os sucessivos governos gregos se batem há muitos anos e caberá aos tribunais internacionais decidirem se o caso está ou não encerrado”, disse Avramopoulos.

advogado em causa própria 

Desde o início da crise, em 2010, muitas associações, cidadãos a título individual e políticos têm recuperado o tema da falta de pagamento por parte da Alemanha das reparações de guerra acordadas após o final da II Guerra Mundial, não só em resposta ao comando germânico das políticas de austeridade que têm sido impostas mas também como uma possível solução para a falta de financiamento que a Grécia atravessa.    A petição online para a Alemanha “honrar as suas obrigações para com a Grécia”, pagando os empréstimos e as reparações pelas “atrocidades cometidas durante a guerra” já conta com mais de 190 mil assinaturas.

Uma das vozes mais activas nesta reivindicação é Notis Marias, deputado eleito pelos Gregos Independentes e professor de Assuntos Europeus na Universidade de Creta.    Ao i, o deputado grego explicou que, na sua opinião, o país “deve recorrer a todos os meios diplomáticos e legais, incluindo tribunais internacionais e outras organizações para reaver o dinheiro”.    Uma alegação que segundo o professor de Direito Internacional do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP), Francisco Pereira Coutinho, pode ter viabilidade junto do Tribunal Internacional de Justiça.    “É fundamentalmente um problema político, mas se a Alemanha não pagar, poderemos eventualmente ter um novo processo no Tribunal Internacional de Justiça (TIJ), agora iniciado pela Grécia, em que se discutirá se este pode apreciar factos que sejam anteriores à sua constituição e se a Grécia tem ou não direito a indemnização” explicou o académico ao i.

No ano passado, o TIJ declarou que a Alemanha não poderia ser responsabilizada em tribunais nacionais dos requerentes por falta de pagamento de reparações de guerra a título individual, depois do Supremo Tribunal Italiano ter decidido que a Alemanha tinha de compensar um italiano deportado em 1944.    Após esta deliberação, um conjunto de cidadãos gregos, parentes das vítimas do massacre de Distomo - onde mais de 200 pessoas foram fuziladas pelas forças nazis - recorreu também aos tribunais italianos em busca da concretização da pena decretada pelos tribunais gregos, uma indemnização de quase 30 milhões de euros, que nunca foi executada.    Para efectivar a sentença, o juiz italiano ordenou o confisco de bens alemães em solo italiano.    A decisão do TIJ foi a de considerar que estas práticas violavam a imunidade jurisdicional alemã.

Dívidas que pagam o futuro 

Mais do que um direito, muitos gregos acreditam que a Grécia da segunda metade do séc. XX e a do início do séc. XXI teria sido muito diferente caso a Alemanha tivesse pago as reparações devidas ao país.    “Se a Alemanha tivesse pago, a Grécia teria tido a hipótese de reconstruir a sua economia e tornar-se um Estado mais competitivo no pós-Guerra”, disse ao i o deputado Notis Marias.

No fim de 1940, durante a ascensão pungente das Forças do Eixo, Mussolini está com dificuldades em invadir a Grécia, um país que aparentemente lhe traria uma vitória fácil e aumentaria o seu prestígio junto do seu aliado, Adolf Hitler.    Durante seis meses as forças italianas tentaram, em vão, invadir o território helénico, sendo repetidamente repelidos pelas forças gregas.    Em Março de 1941, um dos contra-ataques gregos, que fez os italianos baterem em retirada, foi considerada a primeira vitória terrestre dos Aliados na Segunda Guerra Mundial.

Com o crescente embaraço italiano, Hitler veio em auxílio dos italianos e atacou as linhas mais indefesas gregas e, em menos de um mês, as tropas nazis marcharam sobre Atenas.    Foram três anos de domínio tripartido - Alemanha, Itália e Bulgária - que levaram à Grande Fome, no Inverno de 1941, onde morreram mais de 300 mil pessoas, só nos arredores de Atenas.    É aí que ocorrem os empréstimos forçados ao Terceiro Reich que enfraqueceram a moeda nacional  (o dracma) e levaram a uma grande inflação, e aos massacres que dizimaram populações inteiras de vilas e aldeias.    Segundo Marias, as forças nazis “devastaram as infra-estruturas existentes na altura, danificando a economia grega”.

Atenas foi libertada em Outubro de 1944 pelas forças soviéticas, mas seguiu-se uma guerra civil entre as várias forças envolvidas na resistência durante o período de ocupação.    Nas Conferências de Paris, em 1946, que marcaram oficialmente o fim da Segunda Guerra Mundial, a União Soviética arrecadou grande parte dos fundos das reparações alemãs por ter sido o país com maior número de vítimas mortais, mas também pelos danos infligidos no território russo.     Aí ficou também assente que a Grécia receberia 4,5% das reparações materiais exigidas à Alemanha e 2,7% de outras indemnizações.    Estes pagamentos acabaram por chegar através da maquinaria pesada de fabrico alemão, utilizada para renovar a indústria do país e o pagamento de compensações monetárias a vítimas individuais dos crimes de guerra nazis.    A Itália também pagou reparações de guerra à Grécia.

No entanto, uma das maiores reivindicações continua a ser o empréstimo forçado equivalente a mais de 10 mil milhões de euros  (476 milhões de marcos do Terceiro Reich)  desviado durante a guerra para financiar as tropas nazis e que nunca foi contabilizado nas reparações, o que com juros de quase 70 anos, somará uma grande parte dos 162 mil milhões apurados no relatório do governo.

Pagar ou não pagar 

Sete anos depois das Conferências de Paris e temendo as mesmas consequências do pagamento da dívida alemã no pós-Primeira Guerra Mundial, que levaram à ascensão ao poder do partido Nazi em 1933, os credores da Alemanha - já República Federal da Alemanha - reuniram-se e amenizaram as condições de pagamento da dívida externa  (também da I Guerra Mundial) e das reparações devidas aos vários países afectados pelo conflito.

Nos Acordos da dívida alemã, que tiveram lugar em Londres, ficou decidido que os pagamentos externos da Alemanha não excederiam os 5% das exportações e que uma parte da dívida seria paga após um tratado de paz entre as duas Alemanhas, o que veio a acontecer com a reunificação do país em 1990.    Este acordo, juntamente com os fundos proveninentes do plano Marshall, fez com que a República Federal da Alemanha se reerguesse em tempo recorde.

Para além da União Soviética, os grandes destinatários das compensações alemãs foram os sobreviventes judeus e as famílias das vítimas dos judeus mortos em campos de concentração.    Na década de 90, mais de 100 mil pessoas em todo o mundo  (especialmente em Israel e nos Estados Unidos)  recebiam pensões do Estado alemão como reparações de guerra, directas ou indirectas.
No entanto, a Grécia alega que a Alemanha não acabou de pagar o que lhe devia, apesar de ter ratificado, juntamente com outros países, os Acordos da dívida em 1953.

Argumento de peso 

A Grécia nega que o relatório sobre as dívidas alemãs, pedido em Novembro do ano passado pelo Ministério das Finanças a quatro investigadores, e que compilou informação patente em quase 200 mil documentos, vá servir de arma negocial com a troika, alegando que uma coisa é a actual situação financeira do país e outra são as reparações de guerra.    “A troika e as ajudas financeiras não têm nada a ver com esta reclamação. Este assunto é estritamente bilateral e terá de ser resolvido entre a Grécia e a Alemanha”, assegurou Notis Marias ao i.
Seja como for, o primeiro-ministro Antonis Samaras, conta agora com um argumento de 162 mil milhões de euros para sensibilizar a Alemanha para a situação grega.

(Por Catarina Falcão, Jornal "I", em 15/Abr/2013)

Leia também:
Alemanha acabou de pagar a dívida da I Guerra Mundial em 2010 



"Alemanha tem que decidir se quer sair do euro", diz George Soros!

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Trigésimo homem mais rico do mundo critica a gestão alemã da crise das dívidas soberanas e diz que é a altura do país decidir se quer ou não sair do euro.

O multimilionário e investidor George Soros, numa entrevista publicada hoje pelo jornal "El País", tece duras críticas ao papel da Alemanha na gestão das crises europeias e defende a necessidade de se recuperar o espírito de cooperação e solidariedade entre os países-membros da União.
"A Alemanha deve decidir se quer refazer a Europa da forma em que originalmente estava destinada a ser, que pressupõe aceitar as responsabilidades necessárias para avançar nessa direcção, ou deve considerar sair do euro e deixar o resto dos países que acreditam nos eurobonds e podem combater a crise", diz George Soros ao "El País".  

Segundo o investidor, que está na 30ª posição do ranking dos bilionários da revista "Forbes",  só é possível parar a espiral recessiva na União Europeia alterando as políticas.    "A política actual leva a uma dinâmica que consiste em sofrer uma crise atrás da outra, porque só quando o quadro se torna muito feio os países credores liderados  pela Alemanha estendem apoio aos devedores",  acrescenta Soros, sublinhando que essa política não funciona porque peca por ser demasiado tardia.

Saída não significaria fim do euro 

Questionado sobre se a saída da Alemanha da zona euro significaria o fim da moeda única, George Soros diz claramente que não, apontando para o papel importante do Banco Central Europeu.     Na visão do investidor, os  países devedores teriam necessariamente de seguir uma política comum para manter o euro, caso contrário pagariam um "preço terrível."
George Soros diz também acreditar que se a Alemanha saísse do euro, os países devedores de transformariam em economias competitivas e as suas dívidas diminuiriam fortemente face à desvalorização da moeda única.     O principal prejudicado seria o próprio país, defende.
"O preço do ajuste recairia sobre a Alemanha, que teria que lidar com dificuldades, porque de repente os seus mercados seriam inundados por importações do resto da Europa", explica Soros.

Alemanha deve aceitar eurobonds

O investidor húngaro-americano volta ainda a defender a necessidade de converter a dívida existente em eurobonds para se sair da crise, frisando que cabe à Alemanha mudar de direção e aceitar os eurobonds o mais breve possível, a fim de evitar que a situação se deteriore ainda mais. 
Neste sentido, George Soros defende a necessidade de se recuperar o espírito de "cooperação" na União Europeia, entre países credores e devedores, salvaguardando o futuro.
"A crise do euro transformou a União Europeia numa associação voluntária entre Estados iguais numa relação entre credor e devedor.     E em situação de crise, os credores ditam o fim da relação, que leva a que os devedores fiquem sempre numa pior situação.     E isso condena a União Europeia a um futuro muito sombrio",  remata.

Alemanha tem de virar 180º

O multimilionário disse ao jornal "El País" que a chanceler Ângela Merkel "tem de fazer marcha atrás".     Se o não fizer, o "cenário mais possível" é um regresso da Europa "aos nacionalismos extremistas" de "uns países contra os outros".

A Alemanha comete "um erro básico" e optou por um caminho distinto do que os Estados Unidos fizeram após a 2ª Guerra Mundial.     "A ideia da Alemanha de que se pode reduzir a dívida contraindo a economia é não perceber como funciona a economia", afirma George Soros na entrevista.    "A Alemanha tem de virar 180º a sua atitude, tem de fazer marcha atrás"  face a uma crise múltipla na zona euro - crise das dívidas soberanas, crise bancária, divergências de competitividade entre países membros e também crise política.

Se o não fizer, o multimilionário teme o pior na União Europeia, o que o torna "muito, muito pessimista" sobre o futuro.     Nesse "cenário mais possível", Soros prevê que "as dinâmicas políticas levem ao auge governos nacionalistas extremistas em boa parte da Europa, o que é terrível, porque isso provocará reivindicações impossíveis de uns contra os outros e muito ressentimento e hostilidade".     
"Há um sério risco de que aconteça um acidente [financeiro], do tipo do Lehman Brothers", sublinha, caso a estratégia alemã prossiga.

(Fonte:  Expresso Economia aqui e aqui, 15/Abr/2013)



domingo, 14 de abril de 2013

O mundo exige um BCE como fonte de dinheiro da economia para estimular o crescimento

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EUA, Espanha, França, FMI e até George Soros apelaram esta semana à Europa para abrandar a austeridade e usar o BCE como fonte de dinheiro da economia para estimular o crescimento.    Alemães disseram «nein» e Bruxelas exigiu mais sacrifícios aos Estados-membros.

Depois de se assumir como "o bombeiro" da crise do euro nos últimos três anos, alguns dos principais líderes europeus e mundiais acreditam que é no Banco Central Europeu (BCE) que está a única salvação da moeda única.

De mero guardião da inflação, a instituição de Frankfurt passou a ser um dos órgãos mais poderosos do euro:    já emprestou dinheiro ilimitado à banca salvando o sector da bancarrota, evitou novos resgates com a compra de dívida pública, e uma simples frase do seu presidente, Mario Draghi, em meados do ano passado, foi suficiente para evitar o colapso da Zona Euro, juntamente com o corte dos juros dos países periféricos para metade.

Com três anos de crise, dois de recessão, um desemprego galopante e a falência do modelo da austeridade pela austeridade na região, o apelo agora é para que o BCE siga os restantes bancos centrais mundiais – como os dos EUA, Japão ou Reino Unido – e adopte medidas drásticas.    Ou seja, mudar os estatutos da instituição europeia para que possa imprimir dinheiro, inundando a economia com dinheiro barato, e assim estimular o investimento e o crescimento da economia.

Os apelos para um BCE com um papel mais interventivo e como motor de uma política económica na Zona Euro assente mais no crescimento e com menor dose de austeridade foram, esta semana, sublinhados de forma explícita por vários líderes.    Dentro da Europa, o primeiro-ministro espanhol, Mariano Rajoy, foi o mais directo:    exigiu uma injecção de liquidez do BCE na economia e que Bruxelas use todos «os instrumentos disponíveis».     Já François Hollande, presidente francês, não usou directamente o nome do BCE, mas pediu menos austeridade e novos estímulos à economia.

EUA enviam peso pesado

Mas as pressões para um volte-face na austeridade estão a sentir-se além-fronteiras.    O presidente norte-americano, Barack Obama, enviou ao Velho Continente, também esta semana, o seu secretário de Estado do Tesouro, Jacob J. Lew, para pressionar os líderes europeus a travar a austeridade e usar o BCE para estimular o crescimento na Zona Euro – região que é a principal parceira comercial dos norte-americanos.

Lew esteve em Paris, Berlim, Frankfurt e Bruxelas e tentou demonstrar que os EUA estão a recuperar da crise mais depressa do que a Europa, através de injecções de dinheiro da Reserva Federal norte-americana (FED) e apoios ao consumo privado.     George Soros, o investidor mais famoso do Mundo, foi mais longe:    pediu a saída da Alemanha do euro, o lançamento dos eurobonds e salientou que a austeridade não funciona com todos os países a fazer o mesmo.     Mais discreta, Christine Lagarde, directora-geral do Fundo Monetário Internacional (FMI), pediu que a Europa se centre no crescimento e emprego, alertando para as tensões sociais nos países resgatados.

Europa dá nega

Os dois principais centros de decisão na Europa, a Alemanha e a Comissão Europeia, reagiram, porém, com um rotundo e directo não a estes apelos.     O ministro das Finanças, Wolfgang Schäuble, respondeu aos EUA dizendo que não haverá mexidas no BCE e que a austeridade e o crescimento se fazem ao mesmo tempo.     Já Bruxelas, num documento preparatório para o Eurogrupo de hoje em Dublin, negou qualquer alívio nas restrições orçamentais e pediu mesmo medidas extras de austeridade a França, Itália e Espanha e a sete outros estados-membro.

Segundo os analistas, a ideia de o BCE vir a seguir os passos de um FED ou banco central do Japão são praticamente impossíveis num futuro próximo.     Para o BNP Paribas, o apoio do Banco Central Europeu ao crescimento na Zona Euro deverá ficar-se por uma nova descida de juros para 0% até ao final do ano – mas o Barclays acredita que será só em 2014.     Já o Royal Bank of Scotland (RBS) considera que Frankfurt poderá lançar medidas como o alargamento de colaterais aceites para o financiamento de bancos pelo BCE e dar luz verde a emissões de obrigações conjuntas de pequenas e médias empresas (PME).     Mais do que isso será pouco provável, sobretudo sem o projecto de União Bancária completo, previsto apenas para 2015, pelo menos.

Sozinho entre os seus pares

De facto, o BCE é o único banco central das economias desenvolvidas que não usou a injecção directa de dinheiro na economia como forma de travar a recessão.     Frankfurt injectou um bilião de euros na banca, mas as verbas foram sobretudo usadas para recapitalização das instituições financeiras e não para dar crédito à economia, como é necessário.

Por seu lado, os EUA  (país em que os estados federados se ajudam entre si)  já asseguraram que vão dar dinheiro sem limite até a taxa de desemprego descer abaixo de 6,5% – está hoje nos 8%.     Já o Japão quis ir mais longe e anunciou esta semana a maior intervenção do seu banco central de sempre – injectar 54 mil milhões de euros por mês na economia, durante dois anos, num total de um bilião de euros.

A realidade é que a Europa está a perder terreno face aos seus principais concorrentes directos.     A Zona Euro terá em 2013 o segundo ano consecutivo de recessão – inédito na sua história – com mais de metade dos estados-membros estagnados ou em contracção.     O desemprego está num máximo histórico  (12%)  e existe o risco de a região fechar o ano com seis dos seus 17 países resgatados  (Se a Eslovénia cair).     Enquanto isso, EUA, Japão e até o Reino Unido vão continuar a crescer em 2013 e 2014.

 (por Luís Gonçalves In SOL - 13/Abr/2013)



Este governo não se remodela... remenda-se porque é um trapo.

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Tira-nódoas

Este governo não cai porque não é um edifício, sairá com benzina porque é uma nódoa, escreveu Eça.     Aplica-se a este executivo e adapta-se ao momento:    este governo não se remodela porque não é uma casa, remenda-se porque é um trapo.
Uma semana à espera da saída de Relvas para a remodelação e um secretário de Estado passa a Ministro, mais um sinal de um governo exangue, sem atrativos para recrutar.     Já a criação de um ministro-adjunto, na dependência direta do PM, para gerir o QREN mesmo antes das autárquicas, fala por si.
 
Este remendo também revela que, após tanto fracasso, em vez de guinar o rumo, Passos Coelho insiste, despreza a economia, retirando poderes à pasta, enquanto as Finanças se agigantam, roçando o fundamentalismo.    Por fim, o PM confirma o seu deslumbre pelos académicos estrangeirados, mesmo que falhos em experiência política ou do país.
 
Foi assim com Álvaro e Gaspar, ou mesmo Crato, com os resultados que se sabem.    Agora é com Maduro.     Enfim, na altura mais crítica do país em democracia, temos no leme um governo estafado, oportunista, radical e provinciano.     Benzina talvez não chegue.   -  (E eu acrescento:    com um fósforo...   chega!    Tenho a certeza!)
 
(Joana Amaral Dias, In CM - 13/Abr/2013)
 
 
 

Ex-assessor do Governo chama “psicopata” ao ministro das Finanças

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Carlos Vargas considera que Vítor Gaspar é o ministro das Finanças “mais arrogante e mais incompetente desde o reinado de D. Maria II”.
 
 
O antigo assessor do Ministério da Economia, Carlos Vargas, utilizou as redes sociais para fazer  duras críticas ao ministro das Finanças Vítor Gaspar.     “Na verdade trata-se de um psicopata social e não de um ministro das Finanças”, escreveu Carlos Vargas na sua conta pessoal no Twitter (*).
 
(*) Carlos Vargas @carlosavargas   
Cada dia que passa mostra que Vítor Gaspar é o ministro das Finanças mais arrogante
e mais incompetente desde o reinado de D.Maria II.
4:30 PM - 11 Apr 13
 
Numa outra mensagem, o antigo assessor do ministro da Economia, Álvaro Santos Pereira, afirma que “cada dia que passa mostra que Vítor Gaspar é o ministro das Finanças mais arrogante e mais incompetente desde o reinado de D. Maria II”.

sábado, 13 de abril de 2013

Um cenário... apenas um exercício de ficção (bem real) sobre a saída de Portugal do euro!...

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Cuidado!  Muito cuidado com os nacionalistas visionários que advogam a saída do euro! 
 
Uma sexta-feira à noite...
 
Suponhamos que o governo decidiu sair do euro e ressuscitar o escudo.    Mandou por isso imprimir em segredo as notas de escudo e prepara-se para anunciar a novidade, numa sexta à noite, à hora do telejornal, quando os bancos já estão fechados  (ou decreta um feriado bancário durante vários dias).    Nesse fim-de-semana, todos os bancos fazem horas extraordinárias para distribuir as notas por todos os multibancos, para que a nova moeda possa entrar imediatamente em circulação.
 
O que vai acontecer é que toda a gente vai descobrir que se prepara a nova moeda.    Esta operação de lançamento do escudo envolve milhares de pessoas, que transportam e distribuem as notas, e eles vão contar às suas famílias.    E, de qualquer modo, toda a gente assistiu nas semanas anteriores a declarações dos ministros a explicar que isto vai muito mal e precisamos de decisões muito corajosas para salvar a Pátria em perigo.    Em resumo, toda a gente percebeu o que vai acontecer.
 
O que farão então as pessoas?    Não é preciso adivinhar:    vão a correr aos bancos levantar todas as suas contas e guardar as notas de euros.    Se não o fizerem, todas as suas poupanças vão ser transformadas em escudos, a um valor nominal que cairá com a forte desvalorização que, afinal, é o objectivo desta operação.    Os trabalhadores que depositaram salários e poupanças vão ser as primeiras vítimas da nova política.    E por isso vão tentar salvar o que puderem.
 
Ora, os bancos não querem nem podem pagar aos clientes todos os seus depósitos, simplesmente não têm o dinheiro para isso – nem há notas suficientes para cobrir toda a massa monetária líquida que existe em Portugal  (a massa monetária é a soma das notas e moedas em circulação com os depósitos nos bancos, e os bancos não guardam todo esse dinheiro, porque emprestam grande parte dele).    Os bancos vão por isso fechar as portas quando se generalizar o alarme, e o governo vai chamar o exército para guardar os edifícios.    Foi assim na Argentina ou na Rússia, foi assim em todos os casos em que se anunciaram grandes desvalorizações  (e nem se tratava de sair de uma moeda e criar outra, o que nunca aconteceu na história da União Europeia).
 
Os nacionalistas, que propuseram a saída do euro, começam agora a ter a primeira dificuldade.    É que vão defender o exército e os bancos contra a população.    E vão ter de fazer a sua primeira vítima, os depositantes nos bancos.    A conta é fácil:    se a desvalorização for de 50%, as poupanças e depósitos vão perder metade do seu valor.
 
O milagre das exportações

Passou assim o primeiro choque.    Mas vem aí mais, e pior.    O escudo desvalorizou então 50% em relação ao euro.    O governo aposta nessa desvalorização para recuperar a economia e espera que o efeito benéfico seja o seguinte:    as exportações aumentam porque se tornam mais baratas em euros e dólares, enquanto as importações diminuem porque se tornam mais caras em escudos.    Assim, haverá uma deslocação de capital para as indústrias e serviços exportadores e uma redução do consumo e das importações.    Tudo isto melhora substancialmente a balança de pagamentos.    A regra é esta:    se a vida melhorar para Américo Amorim, o dono da maior multinacional industrial portuguesa, ou para outras empresas exportadoras, melhorará também para toda a economia.
 
Parece conveniente, mas é um problema.    É que, com a desvalorização, o preço dos produtos importados aumenta no mesmo dia.    O combustível passou a custar uma vez e meia o seu preço anterior  (e todo o sistema de transportes também), e o mesmo acontece com os alimentos importados ou com os medicamentos, entre tantos bens de primeira necessidade.   Como dois terços do rendimento dos portugueses é para o consumo corrente, imagina-se o efeito imediato destes aumentos de preços no salário.
 
Quanto às exportações, sim, vão aumentar, desde que os compradores no estrangeiro queiram comprar mais em função da redução do preço  (e desde que não haja recessão no estrangeiro, e que os produtos portugueses correspondam a mercados com procura crescente, e que as suas características acompanhem as exigências dos consumidores estrangeiros, etc.).    Talvez aumentem.    Se aumentarem, será em todo o caso devagar:    as receitas das vendas só entram quando se fizerem as vendas, e é preciso esperar o tempo da produção – e é preciso ter dinheiro para investir.    Depois, o que Portugal exporta inclui o custo da matéria-prima e outros produtos que são importados, que são mais de metade do valor das exportações, e que ficaram mais caros.    Por isso, as receitas das exportações aumentam pouco, devagar e mais tarde.
 
A dívida dos bancos duplica a dívida pública

Chega depois o segundo choque.    Metade das famílias portuguesas tem uma longa dívida ao banco, que lhe emprestou dinheiro para comprar a casa.    Emprestou em euros e deve em euros aos bancos estrangeiros, mas vai receber em escudos dos devedores em Portugal.
O banco perdeu assim metade do valor dos seus créditos.    O banco vai por isso à falência.    É por isso que os defensores da saída do euro explicam, honestamente, que será necessário nacionalizar todos os bancos, não tanto para socializar o capital financeiro, mas antes para o salvar.    E salvar um banco pode custar muito caro, como já sabemos pelo caso BPN.    Porque, quando se nacionaliza um banco, fica-se com as suas dívidas, que são dívidas a quem nele depositou e dívidas a quem lhe emprestou dinheiro, normalmente a banca estrangeira.
 
Salvar os bancos tem um custo, e não é pequeno:    a dívida pública portuguesa duplica imediatamente com as dívidas dos bancos, que antes eram privadas e passam a ser públicas porque foram nacionalizadas.
Chegados aqui, já sabemos o que se vai passar:    os nacionalistas vão propor um aumento de impostos para pagar as dívidas da banca ao estrangeiro, isto é, para financiar a banca internacional.
 
Mais impostos
 
Voltemos agora aos problemas que os nacionalistas estão a viver no apoio ao governo que decidiu a saída do euro.    Já têm contra si quem vai pagar mais impostos, viu multiplicar as suas dívidas, paga mais pelos alimentos, transportes e medicamentos, ou perdeu parte das suas poupanças e depósitos.
Com tudo isto, os trabalhadores depressa perceberão que perderam parte do seu salário  (ou da sua pensão), e que o esforço orçamental não diminuiu  (pelo contrário, agravou-se, pois a dívida vai ser paga em euros mas os impostos são recebidos pelo Estado em escudos, e são precisos cada vez mais escudos por cada euro), e a saúde e a educação têm novos cortes.
 
Por outras palavras, os nacionalistas que defendem a saída do euro meteram-se numa alhada.    Os que diziam que queriam impedir a austeridade, acabam a propor um sistema de mais austeridade, toda orientada para o benefício de um sector social, a indústria exportadora, e promovem a queda dos salários e das pensões.    Não resolveram nenhum problema e criaram novas dificuldades.    E perdem o respeito dos trabalhadores, que estão a ser prejudicados.
 
(Por Francisco Louçã (economista), artigo completo em Esquerda.net)