O texto que transcrevo a seguir foi publicado em 5/10/2010 no blogue “Fiel Inimigo”. Porque, mais do que um simples texto de opinião, eu o considero um texto relevantemente histórico (e preocupante na sua componente de antevisão de uma repetição), limitei-me apenas a substituir-lhe alguns vocábulos mais “fortes” que o autor lhe havia introduzido no original, acrescentando-lhe algumas ilustrações. Que o autor me perdoe a ousadia destas pequenas alterações, mas a verdade histórica deverá permanecer acima de todas as ideologias. Agrade ou não. Apenas e só porque aconteceu… e deveremos cuidar de que se não repita. Além do mais, o texto está muito longe de ser exaustivo nas suas referências e descrições! A verdade histórica "total", pelas suas variadíssimas dimensões políticas, sociais, económicas e, até mesmo, éticas e morais, está sempre muito para além do que permite o espaço de um simples texto num blogue.
________________________________________________________________________________
«Do rumo a um inevitável Salazar»
As beatas dos vários credos de «esquerda» e respectivos sacerdotes andam em palpos de aranha com a sombra de Salazar. A «esquerda» tem visões de querubim e bem alicerçadas relativamente ao futuro, mas, em verdade, nem o passado percebe.
Salazar foi fruto das circunstâncias e as circunstâncias eram más. Muito más. A primeira república assemelhava-se a um saco de gatos e o povo passava fome. Aos olhos do povo, Salazar foi o salvador - porque a fome andava de mãos dadas com a primeira república.
O tempo passou mas não esqueço ter ouvido, em primeira mão, variadas descrições sobre as condições de vida antes de Salazar.
A “sardinha para dois numa côdea de pão” era coisa recorrentemente escutada.
Salazar chegou ao poder e a coisa continuou preta. Continuou, mas foi melhorando. Foi melhorando ao ponto do povo mostrar reconhecimento.
Com Salazar não havia liberdade política. É verdade, não havia. O regime era de ditadura. Mas para quem tinha vivido a fome da primeira república, a liberdade só fazia sentido de barriga cheia. Muito se canta, letrado ou não, de barriga cheia, sobre a absoluta necessidade de liberdade mas, de barriga vazia, a perspectiva não é a mesma e ninguém se atreveria a aturar os protestos do estômago em troca de liberdade. Para o povo de então, a falta de liberdade era um mal menor.
-“Pois”, dizia-se. “o gajo é assim ou assado, mas temos comida na mesa”.
A guerra em África veio complicar as coisas já num período em que, para alguns, se tinha tornado patente que, com Salazar, o país já pouco avançaria. A partir daí a coisa foi-se degradando. Marcelo Caetano sucedeu-lhe e, de substancial, pouco melhorou.
Dá-se o 25 de Abril e a liberdade parecia estar à porta. Portugal tinha as contas equilibradas e, embora atrasado, tinha o equilíbrio possível face às circunstâncias. O país estava atrasado, mas aguentava-se a si próprio. Governava-se.
Os anos de 74 a 76 foram complicados porque uma «esquerda radical» pretendia tornar Portugal numa ditadura comunista a ferro e fogo. Nesses anos desbaratou-se o bom pé-de-meia deixado por Salazar, nacionalizou-se a torto e a direito e iniciou-se o processo de desmantelamento da indústria.
Os anos foram passando e a adesão à (então) CEE estava em cima da mesa pela mão de Mário Soares que, já uns anos após a adesão, veio declarar que não era apenas por razões económicas que se aderia, mas para não se correr o risco de escorregar para nova ditadura, “coisa que nunca seria aceite na CEE”.
Da CEE brotaram então "ziliões" em todos os tipos de apoio, esperando-se, em contrapartida, que Portugal fizesse o seu papel: - se desenvolvesse. Portugal não se desenvolveu.
Instalou-se então a ideia de que à Europa interessava a presença de Portugal como mercado, e que tal seria motivo suficiente para garantir o infindável fluir de gordas verbas.
Os governantes foram-se dedicando a distribuir o que em Portugal não era gerado mas, mesmo assim, não chegava. Era preciso mais dinheiro e foram-se aumentando, recorrentemente, os impostos.
Os governantes foram-se dedicando a distribuir o que em Portugal não era gerado mas, mesmo assim, não chegava. Era preciso mais dinheiro e foram-se aumentando, recorrentemente, os impostos.
Comeu-se então o pé-de-meia de um sistema de reformas baseado na poupança, em que os descontos de cada um iriam financiar a própria reforma. Gastou-se rapidamente todo o dinheiro guardado e entrou-se num sistema em que os que trabalham financiam agora “solidariamente” as reformas dos que se aposentam.
O aumento de impostos foi sempre complicando a vida às empresas, em particular ao mundo fabril. O aumento de produtividade foi sempre menor que o aumento de salários e de impostos, e a indústria foi fechando. Começou então o ciclo do endividamento.
Já não chegando o dinheiro vindo da Europa e o abocanhado, via impostos, para manter um sistema que ia, em paralelo, alijando cada vez mais (inexistentes) recursos ao social, Portugal começou a endividar-se.
E foi-se endividando brutalmente.
Nem vale a pena falar da mentira pura e dura, da contabilidade criativa, das estatísticas marteladas, do crescimento disparatado do número de funcionários da coisa pública, da propaganda, da promiscuidade entre estado e empresas, do controle político do ensino, da irresponsabilidade em matéria de segurança e de justiça, do aumento desenfreado da corrupção envolvendo os partidos políticos, dos “jobs for the boys”, das tentativas (uma boa parte levadas a “bom” termo) de controle da informação.
Quando as campainhas de alarme começaram a soar, os «partidos» do costume foram sempre afirmando que não, que estava tudo bem, que se estava a investir no desenvolvimento, e que ele só seria possível com um “social” bem preservado.
Enfim, a coisa descambou, o “especulador” começou a torcer o nariz sempre que Portugal lhe aparecia de mão estendida, o juro subiu e até já os sinos repicam.
Portugal encontra-se sem indústria capaz de substituir ou compensar as importações, e a pouca que subsiste é de baixa produtividade.
A carga fiscal, os custos de financiar a máquina estatal e os altos custos da energia, garantem a impossibilidade de vender produtos a preço concorrencial.
Portugal não tem cana de pesca, não tem dinheiro para a comprar e, ainda por cima, não sabe pescar nem parece muito para aí virado.
E o nome de Salazar vai surgindo, e a «esquerda» mostra-se inquieta.
Se Portugal tivesse que viver apenas daquilo que faz, o nome Salazar deixaria de ser apenas murmurado, para ser gritado. Se Portugal tivesse que viver apenas daquilo que faz, o ambiente seria decalcado do fim da primeira república.
E até já o Presidente da República traça, sem rodeios, um paralelismo entre o ambiente actual e o fim da primeira república, em particular se o governo conseguir mandar às malvas a réstia de confiança que o mundo ainda tem na capacidade de Portugal se governar sem pedinchices.
Foi este o ponto a que se chegou, é isto que tanto incomoda a «esquerda». E o Presidente da República afirma ainda, sem rodeios, que cada novo tropeção nos aproxima, inexoravelmente, do risco de uma nova ditadura.
E até já o Presidente da República traça, sem rodeios, um paralelismo entre o ambiente actual e o fim da primeira república, em particular se o governo conseguir mandar às malvas a réstia de confiança que o mundo ainda tem na capacidade de Portugal se governar sem pedinchices.
Foi este o ponto a que se chegou, é isto que tanto incomoda a «esquerda». E o Presidente da República afirma ainda, sem rodeios, que cada novo tropeção nos aproxima, inexoravelmente, do risco de uma nova ditadura.
Mário Soares estava em crer que a Europa não aceitaria que Portugal pudesse vir a ser uma ditadura e tinha razão.
O problema é que a Europa já começa a não aceitar que Portugal, com ou sem ditadura, lhe conspurque as contas.
Se as coisas por esta via se toldarem, a esperança de Mário Soares cairá por terra e os gritos por um Salazar levarão a «esquerda» ao mundo da realidade para onde, timoneira, empurrou Portugal.
(Por RIO D'OIRO, Fiel Inimigo)
************ ************ ************ ************ ************
(Clicar na imagem para ler a notícia)
A classe média está a chegar à sopa dos pobres!
Entretanto, abriu a caça aos "porcos" na Islândia. Para quando em Portugal?...
Entretanto, abriu a caça aos "porcos" na Islândia. Para quando em Portugal?...
.



































.bmp)
















